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Edição de 23 de outubro de 2026

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Revista Pág. 14 · 23 out 2026

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Carlos Alberto Júlio

Executivo, professor e palestrante brasileiro

LIDERANÇCA

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Imagem gerada por I.A.

Governança: a ponte entre gerações

A

o longo dos últimos artigos discutimos dois temas que costumam provocar desconforto nas empresas familiares: sucessão e governança. Primeiro lembramos que o problema raramente são os herdeiros. Depois exploramos uma ideia que surpreende muitos fundadores: governança não limita o empreendedor — ela o liberta. Chegamos agora ao ponto central dessa conversa: governança não é sobre controle. É sobre continuidade. Empresas familiares são responsáveis por uma parcela extraordinária da riqueza e da geração de empregos no mundo. No Brasil, estima-se que mais de 80% das empresas tenham origem familiar. Ainda assim, os números da longevidade empresarial são conhecidos e inquietantes: poucas chegam à segunda geração, menos ainda à terceira.

Não é falta de talento, não é falta de mercado. Na maioria das vezes, é falta de estrutura. O fundador constrói o negócio com visão, coragem e sacrifício. Mas o que constrói uma empresa não é necessariamente o que garante sua perpetuação. A passagem do tempo exige novas competências, novos processos e, principalmente, novas formas de decisão. É nesse momento que a governança deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma ferramenta estratégica. Governança cria espaços de diálogo onde antes havia apenas hierarquia. Estabelece critérios onde antes predominava a intuição. E, talvez o mais importante, separa três dimensões que frequentemente se confundem nas empresas familiares: família, propriedade e gestão. Quando essas esferas se misturam sem regras claras, surgem conflitos, decisões emocionais e, muitas vezes, paralisia. Quando cada uma encontra seu lugar — conselho de família, conselho de administração e gestão executiva — a empresa ganha clareza. Governança não tira poder do fundador, ela distribui responsabilidade. Também não significa burocracia, significa previsibilidade. E previsibilidade é o que permite que um negócio sobreviva à inevitável mudança das gerações. Empresas familiares que prosperam por décadas têm algo em comum: elas compreendem que legado não se constrói apenas com patrimônio, mas com instituições. No fim, governança é exatamente isso — a ponte que conecta a coragem de quem começou com a capacidade de quem continuará. Porque construir uma empresa é um grande feito. Mas construir uma empresa que sobreviva a você é uma obra muito maior.