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Edição de 23 de outubro de 2026

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Revista Pág. 54 · 23 out 2026

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Fernando Barra

Especialista em tecnologia, inovação e fundador da Skillplace

Imagem gerada por I.A.

TECNOLOGIA

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Chegou a hora de definirmos quem controla a inteligência artificial!

A

inteligência artificial acaba de cruzar uma nova fronteira, e isso muda mais do que parece. Uma decisão recente do governo dos Estados Unidos revelou algo que muitos ainda tratavam apenas como hipótese: a IA deixou de ser apenas uma tecnologia emergente e passou a integrar a infraestrutura estratégica de poder dos Estados. Após um impasse ético envolvendo o uso de inteligência artificial em armas autônomas e sistemas de vigilância em larga escala, a empresa Anthropic foi retirada de contratos federais ligados à área de defesa. Pouco tempo depois, a OpenAI anunciou um acordo para disponibilizar seus modelos em redes classificadas do Departamento de Defesa americano. À primeira vista, pode parecer apenas uma troca de fornecedor, mas o que está acontecendo é algo mais profundo: governos começam a incorporar inteligência artificial diretamente em suas estruturas militares. Quando isso acontece, a tecnologia deixa de ser apenas inovação. Ela passa a ser também um ativo estratégico, capaz de alterar equilíbrios de poder entre nações.

Durante décadas, a supremacia militar esteve ligada a arsenais, satélites ou capacidade industrial. Agora, ela passa também pela capacidade de treinar modelos, processar dados em escala e integrar inteligência artificial em sistemas críticos de decisão. A reação pública ao anúncio foi imediata. Segundo dados da empresa Sensor Tower, as desinstalações do aplicativo ChatGPT nos Estados Unidos aumentaram 295% em um único dia após a divulgação do acordo. Esse movimento revela algo importante: as pessoas já perceberam que a inteligência artificial não é apenas um produto ou uma ferramenta digital. Ela também envolve poder, valores e impacto social. No meu livro Inteligência Ampliada, defendo uma ideia central: a IA não substitui a inteligência humana, ela amplifica os sistemas de decisão que já existem. Se o sistema dominante é científico, a IA acelera descobertas. Se é empresarial, ela acelera mercados. E se é militar, ela amplia capacidade estratégica e poder de guerra.

A tecnologia, portanto, não cria intenções. Ela potencializa as estruturas nas quais está inserida. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja o que a inteligência artificial é capaz de fazer. A questão real é outra: quem controla os sistemas que estão sendo ampliados. À medida que governos, empresas e instituições começam a integrar IA em suas infraestruturas mais críticas, entramos em uma nova disputa — não apenas tecnológica, mas também política e ética — sobre quem define os limites dessa amplificação. E isso nos leva a uma pergunta inevitável. Quem deveria estabelecer os limites do uso da inteligência artificial em contextos militares? Empresas de tecnologia, que desenvolvem os sistemas? Governos, que detêm o poder soberano? Ou algum tipo de governança internacional capaz de criar regras globais para uma tecnologia que já ultrapassa fronteiras? Talvez o verdadeiro debate sobre inteligência artificial não seja sobre máquinas que pensam, mas sobre as estruturas de poder que elas estão prestes a ampliar.