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Pesquisa revela que metade dos adolescentes brasileiros segue desprotegida contra HPV e alerta para risco de cânceres

30 mar 2026 - 08h38 Joice Gomes   atualizado às 08h40
Pesquisa revela que metade dos adolescentes brasileiros segue desprotegida contra HPV e alerta para risco de cânceres Alerta da PeNSE: apenas 54,9% dos adolescentes confirmam vacina contra HPV, vírus ligado a 99% dos cânceres de colo de útero. (Imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)

Uma pesquisa recente expõe uma vulnerabilidade alarmante entre os adolescentes brasileiros: quase metade deles permanece sem proteção completa contra o papilomavírus humano (HPV), principal causador de cânceres como o de colo do útero, ânus, pênis, boca e garganta.

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente a vacina para meninos e meninas de 9 a 14 anos, mas dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgados pelo IBGE, indicam que apenas 54,9% dos estudantes entre 13 e 17 anos têm certeza de terem sido imunizados. Isso significa cerca de 1,3 milhão de jovens desprotegidos e outros 4,2 milhões que não sabem seu status vacinal.

Queda na cobertura vacinal preocupa autoridades

A edição de 2024 da PeNSE, coletada em 2024 e publicada em março de 2026, aponta uma redução de 8 pontos percentuais na certeza de vacinação em relação a 2019. Entre as meninas, a queda foi ainda mais acentuada, de 16,6 pontos, passando de 76,1% para 59,5%. Já os meninos registram 50,3% de certeza de imunização.

O HPV é transmitido principalmente por contato sexual e a vacina atinge máxima eficácia quando aplicada antes da primeira relação. A pesquisa revela que 30,4% dos entrevistados já têm vida sexual ativa, com idade média de início de 13,3 anos para meninos e 14,3 para meninas, ampliando o risco para os não vacinados.

Falta de informação como principal barreira

Entre os não vacinados, 50% afirmam desconhecer a necessidade da imunização, segundo a PeNSE. Outros motivos incluem recusa dos pais (7,3%), dúvida sobre a função da vacina (7,2%) e dificuldade de acesso (7%). Diferenças regionais e entre redes pública e privada também aparecem: 11% dos alunos públicos não se vacinaram, contra 6,9% dos privados, mas a resistência parental é maior na privada (15,8%).

Isabela Balallai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, enfatiza que a hesitação vacinal vai além de fake news. "A falta de acesso, baixa percepção de risco e ausência de informação básica são os grandes problemas no Brasil", afirma. Ela defende as escolas como solução central: elas resolvem desinformação, acesso e conscientização familiar.

Contexto do HPV e impacto no Brasil

O HPV é a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo, com prevalência estimada em 54,6% na população genital brasileira, conforme estudos multicêntricos. No país, responde por 99% dos cânceres de colo de útero – cerca de 19.300 novos casos anuais projetados pelo INCA para 2026-2028, o segundo mais incidente entre mulheres no Norte e Nordeste. Em 2025, a doença causou 7.249 mortes, ou 20 por dia.

Outros tumores ligados ao vírus incluem boca (70% dos casos por HPV 16 e 18), ânus (85%) e pênis. A vacinação, iniciada no SUS em 2014 inicialmente para meninas e estendida a meninos em 2017, já mostra resultados: estudo da Fiocruz indica redução de 58% nos cânceres de colo do útero e 67% em lesões pré-cancerosas entre mulheres jovens vacinadas.

Evolução da estratégia vacinal no SUS

Desde 2024, o Ministério da Saúde adotou dose única para 9-14 anos, seguindo OMS e Opas, por oferecer proteção significativa e facilitar adesão. Dados preliminares de 2025 mostram cobertura de 86% em meninas e 74,4% em meninos nessa faixa. Para resgatar os que perderam a oportunidade, campanha prorrogada até junho de 2026 atinge 15-19 anos, com 217 mil doses aplicadas até agora e foco em escolas.

O app Meu SUS Digital permite checar status vacinal. Unidades de saúde seguem oferecendo o imunizante gratuitamente.

  • Vacina quadrivalente protege contra sorotipos 6, 11, 16 e 18, responsáveis por 70% dos cânceres e verrugas genitais.
  • Escolas públicas e privadas são parceiras em campanhas desde 2012, via MEC e Ministério da Saúde.
  • Grupos especiais (HIV, transplantados, vítimas de violência sexual) mantêm esquemas de até três doses.

Exemplos de sucesso e desafios futuros

Famílias como a da jornalista Joana Darc Souza ilustram o caminho: suas filhas de 9 e 12 anos estão vacinadas graças a pediatras atentas e convocações escolares no Rio de Janeiro. "Vacina salva vidas, aprendi isso em casa e passo adiante", diz ela. No entanto, a queda na cobertura exige ação urgente para evitar retrocessos.

O INCA projeta 781 mil novos cânceres anuais até 2028, com crescimento de 10%. Eliminar o câncer de colo do útero, meta global da OMS para 2030, depende de vacinação em massa, rastreio (como teste de DNA-HPV substituindo Papanicolau) e equidade regional. No Norte, incidência é quase o dobro do Sudeste.

Especialistas como Eder Gatti, do Programa Nacional de Imunizações, reforçam: "Resgatar adolescentes contribui para reduzir circulação viral". Com estratégias extramuros e escolares, o Brasil pode reverter o quadro da PeNSE e proteger gerações.

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