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Anvisa aperta o cerco contra venda ilegal de canetas emagrecedoras

Anvisa discute novas regras para canetas emagrecedoras após explosão do mercado ilegal. Entenda os riscos à saúde e o que muda na fiscalização desses remédios.

26 abr 2026 - 11h57 Joice Gomes   atualizado às 12h22
Anvisa aperta o cerco contra venda ilegal de canetas emagrecedoras Uso indiscriminado de medicamentos GLP-1 preocupa autoridades e médicos devido a riscos de pancreatite e mercado ilegal. (Imagem: gerado por IA)

A explosão no uso de medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras, que incluem princípios ativos como a semaglutida, tirzepatida e liraglutida, acendeu um alerta vermelho nas autoridades sanitárias brasileiras. Nesta semana, a diretoria-colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) iniciou a discussão de uma proposta de instrução normativa que visa endurecer os requisitos técnicos e procedimentos para o controle desses medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1.

O avanço do mercado clandestino

O que deveria ser um tratamento médico rigoroso para obesidade e diabetes tipo 2 transformou-se em um fenômeno de consumo estético desenfreado. Esse cenário impulsionou um mercado ilegal preocupante, que envolve desde a venda sem prescrição até a falsificação e a manipulação de versões não autorizadas. Atualmente, a legislação brasileira exige a retenção da receita médica para a compra desses fármacos, mas a fiscalização enfrenta o desafio das vendas online e de farmácias que ignoram as normas.

Um dado revelado pela Anvisa impressiona: no segundo semestre de 2025, o Brasil importou mais de 100 quilos de insumos farmacêuticos para a manipulação dessas substâncias. De acordo com especialistas, essa quantidade seria suficiente para produzir cerca de 20 milhões de doses, um volume considerado incompatível com a demanda regular e segura do mercado nacional. Recentemente, a agência apreendeu 1,3 milhão de medicamentos com algum grau de irregularidade, seja por armazenamento inadequado ou origem duvidosa.

A revolução e o risco: a visão dos especialistas

O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), Neuton Dornelas, classifica a chegada desses medicamentos como uma revolução no tratamento da obesidade, mas alerta para o perigo da banalização. Segundo ele, as canetas são extremamente eficazes porque atuam em três frentes: melhoram o controle da glicose, retardam o esvaziamento do estômago (gerando saciedade prolongada) e atuam diretamente no cérebro para reduzir o apetite.

“São medicamentos potentes que abriram um novo horizonte para quem vive com doenças crônicas, diminuindo inclusive o risco cardiovascular. No entanto, o uso indiscriminado e o consumo de fontes não seguras são condenatórios”, afirma Dornelas. Ele defende, inclusive, medidas drásticas temporárias, como o bloqueio da manipulação dessas drogas injetáveis por um período de até um ano, até que a Anvisa consiga estruturar uma fiscalização capaz de conter o volume alarmante de doses irregulares.

O perigo silencioso da pancreatite

Embora os efeitos colaterais mais comuns sejam gastrointestinais, como náuseas e vômitos, o uso sem acompanhamento médico pode esconder riscos graves. O maior temor das autoridades é o aumento nos casos de pancreatite. Como o medicamento retarda o esvaziamento gástrico, o líquido dentro da vesícula biliar pode ficar parado por mais tempo, facilitando a formação de cálculos que podem obstruir o pâncreas.

“A dor abdominal intensa e persistente na parte superior do abdômen é o principal sinal de alerta. Nestes casos, a busca por atendimento médico deve ser imediata”, orienta o médico. Ele ressalta que cerca de 60% a 70% dos pacientes não sentem efeitos adversos, o que não significa que o remédio não esteja funcionando, mas reforça a necessidade de monitoramento profissional para ajustar doses e evitar complicações silenciosas.

Segurança e responsabilidade

Para garantir que o tratamento não se torne um problema de saúde pública, as entidades médicas e a Anvisa reforçam os quatro pilares da segurança: o medicamento deve ter registro na Anvisa, a prescrição deve ser feita por um médico com registro ativo que realize o acompanhamento, a compra deve ocorrer em farmácias licenciadas e a dosagem deve ser seguida à risca, sem ajustes por conta própria.

A nova instrução normativa da Anvisa, em conjunto com ações educativas do Conselho Federal de Medicina (CFM) e de Farmácia (CFF), pretende não apenas punir o comércio ilegal, mas conscientizar a população de que, por trás da promessa de um corpo ideal, existem riscos biológicos que só a ciência e a medicina ética podem gerenciar.

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