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Acordo Global de Pandemias: OMS vive semana decisiva para evitar novo 'apartheid' de vacinas

A OMS corre contra o tempo em Genebra para selar o tratado de pandemias e garantir que países pobres tenham acesso equitativo a vacinas em futuras crises globais.

27 abr 2026 - 08h27 Joice Gomes   atualizado às 08h28
Acordo Global de Pandemias: OMS vive semana decisiva para evitar novo 'apartheid' de vacinas Sede da Organização Mundial da Saúde em Genebra, palco de negociações históricas sobre o tratado de pandemias. (Imagem: gerado por IA)

A Organização Mundial da Saúde (OMS) deu início, nesta segunda-feira (27), àquela que é considerada a semana mais crítica para o futuro da segurança sanitária global. Em Genebra, diplomatas e especialistas correm contra o tempo para selar um acordo sobre o sistema de acesso a patógenos e a partilha de benefícios, o chamado PABS. Este mecanismo é a peça-chave para viabilizar o Tratado Global de Pandemias, uma resposta direta às falhas catastróficas expostas pela covid-19.

O fantasma da desigualdade na saúde

O foco central da disputa é a criação de uma rede que permita o compartilhamento rápido de dados genéticos de vírus e bactérias com potencial pandêmico. Em troca desses dados, países em desenvolvimento exigem garantias concretas de que não serão os últimos da fila quando vacinas e tratamentos forem desenvolvidos. Durante a última crise sanitária, o mundo assistiu ao que especialistas chamaram de "apartheid de vacinas", onde nações ricas estocaram doses enquanto o restante do globo aguardava por doações escassas.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, foi enfático ao abrir as sessões: "O mundo não pode deixar esta oportunidade passar e correr o risco de não estar preparado para a próxima pandemia". O objetivo é fechar o texto nesta semana para que ele possa ser ratificado pela Assembleia Geral da OMS em maio de 2025.

Impasse entre a indústria e o interesse público

Apesar da urgência, as negociações enfrentam resistências pesadas. De um lado, países como o Brasil e nações do continente africano defendem que o acesso aos dados dos vírus deve gerar compromissos jurídicos imediatos. O texto em discussão prevê que laboratórios que utilizem o sistema PABS reservem 20% de sua produção de vacinas e testes para a OMS em caso de emergência, metade como doação e metade a preços acessíveis.

Por outro lado, potências como Alemanha, Suíça e Noruega, que abrigam gigantes do setor farmacêutico, demonstram cautela. Há uma preocupação sobre a rentabilidade a longo prazo e a proteção de patentes. Além disso, existe um embate técnico sobre o anonimato dos dados. Países desenvolvidos preferem um sistema de acesso anônimo, enquanto mais de 100 ONGs alertam que isso tornaria impossível rastrear quem está lucrando com as informações genéticas de países em desenvolvimento sem dar nada em troca.

O fator político e a saída dos Estados Unidos

O cenário geopolítico adiciona uma camada extra de tensão. A decisão do governo de Donald Trump de retirar os Estados Unidos da OMS enfraquece o multilateralismo e cria um vácuo de liderança. Sem a maior economia do mundo na mesa, a pressão sobre a União Europeia e a China para liderarem o financiamento do novo sistema aumenta consideravelmente.

Jean Karydakis, diplomata brasileiro em Genebra, sinalizou que há uma leve flexibilização por parte do bloco europeu, mas as divergências sobre a transferência de tecnologia, fora dos períodos de pandemia, continuam sendo um ponto de fricção. Para as nações em desenvolvimento, não basta ter acesso a vacinas apenas no auge do caos; é preciso capacitar laboratórios locais para produzir insumos de forma independente.

O que está em jogo para o cidadão comum

Embora pareça uma discussão burocrática de alto escalão, o desfecho desta semana em Genebra dita como será a reação mundial à próxima "Doença X". Se o sistema PABS falhar, o cenário mais provável é a repetição do fechamento de fronteiras desordenado, a escassez de insumos básicos e a dependência total de decisões unilaterais de grandes potências. O sucesso do acordo significa, na prática, um sistema de alerta e resposta mais justo, onde a ciência é compartilhada para salvar vidas, independentemente do PIB de cada nação.

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