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Agricultura

A lição de Tomé-Açu: como uma praga devastadora deu origem a um império milionário na Amazônia

Descubra como Tomé-Açu superou uma praga devastadora para criar o sistema agroflorestal que hoje é referência mundial em lucro e sustentabilidade na Amazônia.

27 abr 2026 - 08h29 Joice Gomes   atualizado às 08h31
A lição de Tomé-Açu: como uma praga devastadora deu origem a um império milionário na Amazônia Plantações diversificadas em Tomé-Açu mostram o sucesso do sistema agroflorestal que recuperou a economia local. (Imagem: gerado por IA)

No coração do Pará, a cerca de 200 quilômetros de Belém, existe um lugar que desafiou as leis da agricultura convencional e provou que a floresta em pé pode ser muito mais lucrativa do que o pasto ou a monocultura. Tomé-Açu, hoje um nome respeitado globalmente, carrega uma história de superação que começou com um desastre econômico total e terminou na criação de um modelo bilionário de exportação.

O colapso do 'ouro preto'

A história começa na primeira metade do século XX, com a chegada de imigrantes japoneses. Eles trouxeram consigo a pimenta-do-reino, que se adaptou tão bem ao solo paraense que transformou a região na maior produtora do mundo. Durante décadas, o "ouro preto" trouxe riqueza e prosperidade. No entanto, o sucesso estava fundamentado em um modelo frágil: a monocultura extensiva.

Na década de 1960, o desastre bateu à porta. O fungo Fusarium oxysporum, responsável pela doença conhecida como fusariose, espalhou-se rapidamente pelos pimentais. Sem diversidade biológica para frear a contaminação, plantações inteiras morreram em meses. Famílias que eram ricas viram-se, da noite para o dia, mergulhadas em dívidas e com terras que pareciam inúteis.

A revolução do SAFTA

Foi diante da falência iminente que os produtores locais, liderados pela colônia japonesa, decidiram observar como a própria floresta se regenerava. Eles perceberam que a natureza não planta apenas uma espécie. Assim nasceu o SAFTA (Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu). Em vez de limpar a terra para plantar apenas uma cultura, eles começaram a misturar espécies de ciclos diferentes.

O sistema funciona como uma orquestra: plantas de ciclo curto, como o mamão, o arroz e o melão, garantem o fluxo de caixa imediato. Enquanto isso, o cacau e o açaí crescem à sombra de árvores maiores. No topo, espécies madeireiras e árvores altas protegem o solo e mantêm a umidade. O resultado? Um solo que se recupera sozinho, sem a necessidade de fertilizantes químicos pesados e com uma produtividade por hectare muito superior à tradicional.

De terra degradada a polo de exportação

Hoje, Tomé-Açu não é apenas uma cidade agrícola, mas uma potência industrial. A Cooperativa Mista de Tomé-Açu (CAMTA) é o coração desse império, processando toneladas de polpas de frutas exóticas e cacau fino que abastecem mercados exigentes no Japão, Europa e Estados Unidos. O modelo provou ser a solução definitiva para recuperar áreas degradadas pela pecuária ou por cultivos antigos.

O que diferencia Tomé-Açu de outras regiões é a resiliência econômica. Se o preço do cacau cai, o produtor lucra com o açaí. Se uma praga ataca uma espécie, as outras garantem a sobrevivência da propriedade. É uma lógica de investimento diversificada aplicada ao campo, que garante que a cidade permaneça próspera mesmo em crises globais.

O futuro é regenerativo

Atualmente, o modelo de Tomé-Açu é estudado por cientistas e investidores do mundo todo como a principal resposta para o desenvolvimento da Amazônia sem desmatamento. A cidade transformou o que seria um deserto de terra morta em uma floresta produtiva que gera empregos e preserva a biodiversidade. A grande lição que fica é que a inteligência aplicada à natureza é o ativo mais valioso do agronegócio moderno, transformando um problema fitossanitário no maior case de sucesso da bioeconomia brasileira.

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