Os Correios anunciam escala 12x36 gradual em atividades chave como entregas, parte do plano contra déficit de bilhões.
(Imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)
Os Correios iniciaram a adoção gradual da escala de trabalho conhecida como 12x36, com 12 horas de jornada seguida de 36 horas de descanso, em setores específicos da operação logística. A medida visa modernizar os fluxos e atender ao boom do comércio eletrônico, priorizando entregas ágeis inclusive aos fins de semana.
A implementação ocorre de forma não automática, ajustada às demandas reais do serviço, e integra o amplo plano de reestruturação da empresa estatal, que enfrenta grave crise financeira com prejuízos acumulados superiores a R$ 6 bilhões até setembro de 2025 e patrimônio negativo de R$ 10,4 bilhões. A estatal captou R$ 12 bilhões em crédito para financiar as ações emergenciais de estabilização.
Objetivos da nova jornada
A escala 12x36 surge como ferramenta para alinhar turnos à operação contínua, ampliando a capacidade produtiva e fortalecendo a competitividade no mercado de encomendas. Áreas de triagem, distribuição e entregas rápidas serão as principais impactadas, com expectativa de redução indireta em custos como vale-transporte, já que implica menos dias trabalhados por mês.
Legalmente, essa modalidade é permitida pela legislação trabalhista desde a Reforma de 2017, por meio de acordo individual escrito, convenção ou acordo coletivo, compensando as 12 horas diárias com folgas estendidas que equalizam a média semanal a 42 horas. Os Correios afirmam que respeitarão integralmente os direitos dos empregados, sem horas extras habituais que descaracterizem o regime.
Reação dos trabalhadores
A Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telegrafos e Similares (Fentect) repudiou a iniciativa, classificando-a como precarizadora que sobrecarrega e adoece a categoria. A entidade orienta os funcionários a não assinarem acordos individuais e convoca mobilização nacional para barrar retrocessos, enfatizando que não há negociação sem retirada de direitos.
Sindicatos regionais, como o Sintect-RJ, alertam para riscos à saúde em jornadas longas e questionam a compatibilidade com o ACT 2025/2026, propondo debates amplos antes de qualquer alteração. A resistência ganha força em assembleias e redes sociais, com promessa de greves se a empresa insistir na medida.
Contexto da crise financeira
O plano de reestruturação, dividido em três fases, busca equilíbrio até 2027: estabilização imediata com empréstimos, corte de custos internos e revisão do modelo de negócios. Em 2025, os Correios fecharam com prejuízo estimado em R$ 5,8 bilhões, triplicando o rombo do primeiro semestre e impactando as contas públicas federais, que contingenciaram R$ 3 bilhões em outros ministérios.
Diagnóstico aponta rigidez em 90% das despesas fixas, queda na receita de serviços tradicionais e concorrência feroz de players privados no e-commerce. A estatal, com mais de 82 mil funcionários próprios, enfrenta liquidez crítica, agravada por provisões judiciais e planos de saúde onerosos.
Medidas complementares em curso
Além da escala 12x36, o pacote inclui fechamento de até mil agências deficitárias, 16% das 6 mil unidades próprias, mantendo a universalização postal via parcerias em mais de 10 mil pontos. O Programa de Desligamento Voluntário (PDV), reaberto em janeiro de 2026 sem limite de idade para quem tem pelo menos 10 anos de casa, registrou quase 2 mil adesões na primeira fase, com prazo até 31 de março e meta de 15 mil saídas até 2027, gerando economia de R$ 2,1 bilhões anuais a partir de 2028.
Reformas em planos de saúde e previdência visam R$ 700 milhões de corte anual, enquanto renegociações judiciais freiam provisões crescentes. A venda de ativos ociosos começou em fevereiro, mas o primeiro leilão vendeu apenas 3 de 12 imóveis por R$ 9,1 milhões, longe da meta de R$ 1,5 bilhão até dezembro; novos pregões seguem até abril.
Impactos e perspectivas
Para os Correios, essas ações prometem R$ 5 bilhões em economias até 2028, com foco em tecnologia e novos mercados para recuperação em 2027. No entanto, o sucesso depende de adesões ao PDV e reação do mercado, em meio a críticas por afetar serviços em áreas remotas.
Os trabalhadores temem perda de qualidade de vida e aumento de acidentes em turnos exaustivos, enquanto analistas veem na escala 12x36 um padrão em logística global, mas adaptado à realidade brasileira. O governo monitora via marco regulatório alterado, permitindo aportes pontuais sem privatização imediata.
- Préjuízo 2025: R$ 5,8 bilhões, após R$ 2,6 bi em 2024.
- PDV: Até 15 mil desligamentos, economia R$ 2,1 bi/ano.
- Agências: Fechamento de 1 mil unidades deficitárias.
- Empréstimo: R$ 12 bilhões para estabilização.
- Escala 12x36: Gradual, em logística e entregas.
A tensão entre eficiência operacional e direitos laborais define o futuro da estatal, essencial para o comércio nacional. Atualizações sobre negociações com sindicatos e resultados do PDV serão cruciais nos próximos meses.