Mulheres do bloco Ilú Obá de Min lideram cortejo de lavagem no Bixiga. Foto: Elaine Patricia Cruz/Agência Brasil
(Imagem: gerado por IA)
O som seco e potente das alfaias não apenas ecoou pelas ruas estreitas do Bixiga na noite desta segunda-feira; ele serviu como um martelo simbólico, quebrando as camadas de apagamento histórico que cobrem o centro de São Paulo. Sob a liderança do bloco afro Ilú Obá de Min, um cortejo majoritariamente formado por mulheres negras ocupou a emblemática Escadaria do Bixiga para realizar a tradicional lavagem com água de cheiro, um ritual que transcende a estética para se firmar como um dos atos políticos mais contundentes da capital paulista.
A escolha da data não é mera coincidência. Enquanto o calendário oficial ainda registra o 13 de maio como o dia da Abolição da Escravatura, os tambores do Ilú Obá de Min narram outra versão: a da "falsa abolição". Para o movimento, a assinatura da Lei Áurea em 1888 não garantiu cidadania, mas sim o início de um processo de marginalização que empurrou a população negra para as periferias e para a invisibilidade urbana.
O resgate da Pequena África paulistana
Durante o ato, a presidenta e regente do bloco, Beth Beli, foi enfática ao recordar que a identidade do Bixiga é muito mais profunda do que os clichês turísticos das cantinas italianas sugerem. Antes da onda migratória europeia que o governo brasileiro incentivou como projeto de branqueamento da nação, aquela região era o território do Quilombo Saracura.
"Esse bairro nunca foi puramente italiano; ele sempre foi dos povos africanos. A colônia chegou depois, dentro de um projeto estrutural", afirmou Beth Beli à reportagem. No início do século 20, o Bixiga era conhecido como a "Pequena África" de São Paulo, um celeiro de cultura e resistência onde nasceu parte fundamental do samba paulistano. Lavar as ruas com água de cheiro é, portanto, um gesto de purificação contra o esquecimento forçado.
A voz das mulheres e a força do tambor
O Ilú Obá de Min, que completa 20 anos em 2024, utiliza a percussão como sua principal ferramenta de comunicação. Para o coletivo de mais de 400 integrantes, o tambor não é apenas um instrumento musical, mas uma herança milenar de convocação e resistência. "Se a gente tem alguma arma, a arma é o nosso tambor", destacou Beli, reforçando que a batida amplifica a voz de mulheres que historicamente foram silenciadas nos processos de decisão do país.
Em um manifesto distribuído durante o cortejo, o bloco reforçou que as mulheres negras sempre estiveram na linha de frente das rebeliões. O texto lido no topo da escadaria rejeita o legado do colonialismo e propõe uma construção social baseada na cooperação mútua, combatendo não apenas o racismo, mas também o machismo, a transfobia e a exploração capitalista.
Lavagem da mentira e legado de resistência
O gesto de lavar a rua é carinhosamente chamado pelas integrantes de "lavagem da rua da mentira". O objetivo é limpar simbolicamente o solo das injustiças e da narrativa oficial que tenta apagar a presença negra daquele território. O coletivo Ori Axé, que iniciou a tradição em 2006, passou o bastão para o Ilú Obá de Min, garantindo que a chama da memória não se apague.
Para quem acompanha de perto, o ato é mais do que uma celebração cultural; é uma lição de urbanismo e sociologia a céu aberto. Ao final do percurso, o sentimento não é apenas de dever cumprido, mas de continuidade. A lavagem da Escadaria do Bixiga reafirma que, enquanto houver tambores batendo no centro da metrópole, a história da Pequena África paulistana permanecerá viva, pulsante e em constante disputa.