São Paulo | 12ºC
Dom, 06 de Setembro
Mercado Financeiro Principais ações negociadas na B3
B3 • Brasil
Cotações fornecidas por TradingView Valores sujeitos a atraso de mercado
Desinformação

O abismo digital que alimenta a desinformação no Brasil

Estudo aponta que internet lenta e falta de representatividade nas mídias facilitam o avanço de fake news em territórios periféricos e indígenas no Brasil.

14 mai 2026 - 08h28 Joice Gomes   atualizado às 08h30
O abismo digital que alimenta a desinformação no Brasil Falta de infraestrutura digital e rotina exaustiva são barreiras para o acesso à informação de qualidade. (Imagem: gerado por IA)

A luta contra a desinformação no Brasil não se resolve apenas com agências de checagem ou algoritmos sofisticados. O problema é estrutural e tem raízes profundas na desigualdade social. Um levantamento recente, intitulado "Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias no Brasil", revela que a internet precária e a falta de identificação do público com os grandes veículos são os verdadeiros combustíveis para a propagação de notícias falsas.

Divulgado pela Coalizão de Mídias Periféricas, Faveladas, Quilombolas e Indígenas, o estudo mostra que informar-se no Brasil ainda é um privilégio de classe. Para um em cada quatro entrevistados, a conexão instável ou inexistente é a barreira primária. Sem acesso pleno, o cidadão consome apenas fragmentos de informação, muitas vezes vindos de fontes duvidosas que circulam em pacotes de dados limitados a redes sociais.

O peso da rotina exaustiva e a falta de tempo

A pesquisa, que ouviu 1,5 mil pessoas em polos distintos como Santarém (PA), Recife (PE) e São Paulo (SP), trouxe um dado humano crucial: o fator tempo. Cerca de 16% dos ouvidos afirmam que a rotina exaustiva impede a verificação mínima de fatos. Esse cenário é ainda mais agudo entre mulheres, que frequentemente acumulam múltiplas jornadas de trabalho e cuidado doméstico. Para quem vive sob pressão constante, a notícia que chega pelo WhatsApp raramente é questionada; ela é apenas consumida entre um trajeto de ônibus e outro.

Além da pressa, há a dificuldade técnica: 17% dos moradores de periferia admitem que não conseguem distinguir com clareza o que é fato do que é boato. Isso não é falta de discernimento, mas sim reflexo de um sistema educacional e midiático que historicamente excluiu essas populações do debate público qualificado, tratando-as apenas como receptoras passivas.

O jornalismo que "fala" contra o jornalismo que "ouve"

Thais Siqueira, diretora da Coalizão e coordenadora do estudo, é enfática ao apontar que o problema também reside na forma como o jornalismo é produzido. "O desafio é mudar a lógica: sair de um jornalismo que só 'fala' para um jornalismo que escuta e constrói junto", explica. A falta de representatividade faz com que o morador da favela ou do território indígena não se veja na tela da TV ou nas páginas dos grandes jornais, gerando um distanciamento afetivo e de confiança.

Curiosamente, o estudo derruba o mito de que os influenciadores digitais são as fontes mais confiáveis para esse público. Eles aparecem no final da lista de credibilidade, atrás de lideranças comunitárias, professores e até da mídia tradicional. O que acontece é que, embora sejam muito consumidos pelo entretenimento, na hora de buscar informações que impactam a vida real, como saúde e direitos, o cidadão busca referências em quem compartilha a sua realidade física e cotidiana.

Diferenças regionais e o papel do local

Em cidades como São Paulo e Recife, o consumo de notícias é mais diversificado, mesclando sites, portais e redes. Já em Santarém, no Pará, a dependência do WhatsApp é acompanhada pela força da TV aberta e do rádio, mostrando que em regiões onde a infraestrutura digital falha, os meios tradicionais ainda são os pilares da informação. Para combater esse cenário, o estudo propõe 16 recomendações práticas. A principal delas é o fortalecimento e financiamento do jornalismo local e periférico.

São esses produtores de conteúdo que entendem a gíria, a dor e a necessidade do território. A produção de notícias em áudio e vídeos curtos, que consomem menos dados e são fáceis de compartilhar, surge como uma estratégia vital para democratizar o conhecimento. O desdobramento deste estudo coloca uma pressão necessária sobre as empresas de tecnologia e o Estado: não basta oferecer internet se ela for de baixa qualidade; não basta produzir notícias se elas não falarem a língua do povo.

Leia Também
Sesc Bertioga resgata cultura caiçara no Festival ‘O Mar em Nós’
Cotidiano Sesc Bertioga resgata cultura caiçara no Festival ‘O Mar em Nós’
Corpo de turista desaparecida no Guarujá é encontrado em Bertioga
Cotidiano Corpo de turista desaparecida no Guarujá é encontrado em Bertioga
Como denunciar violência sexual infantil: plataforma mapeia conselhos tutelares
Cotidiano Como denunciar violência sexual infantil: plataforma mapeia conselhos tutelares
Frente fria severa muda tempo no feriadão; veja onde há risco de tempestade e geada
Cotidiano Frente fria severa muda tempo no feriadão; veja onde há risco de tempestade e geada
Independência: 1,4 milhão de carros devem descer ao litoral; veja melhor horário
Cotidiano Independência: 1,4 milhão de carros devem descer ao litoral; veja melhor horário
Setembro Amarelo: Guarujá cria rede de apoio contra crise de saúde mental nas escolas
Cotidiano Setembro Amarelo: Guarujá cria rede de apoio contra crise de saúde mental nas escolas
Curso gratuito de bijuterias abre inscrições para renda extra
Cotidiano Curso gratuito de bijuterias abre inscrições para renda extra
Pacto entre Rio e União mira asfixia financeira e retoma de territórios de facções
Cotidiano Pacto entre Rio e União mira asfixia financeira e retoma de territórios de facções
Carreta da Odontologia oferece consultas gratuitas na Vila São José; veja prazos
Cotidiano Carreta da Odontologia oferece consultas gratuitas na Vila São José; veja prazos
DDM de Praia Grande inicia plantão 24 horas no combate à violência contra a mulher
Cotidiano DDM de Praia Grande inicia plantão 24 horas no combate à violência contra a mulher
Mais Lidas
Bahia e Palmeiras empatam em mata-mata tenso marcado por brilho de goleira
Esportes Bahia e Palmeiras empatam em mata-mata tenso marcado por brilho de goleira
Bahia e Palmeiras empatam por 1 a 1 na Arena Fonte Nova pelas quartas do Brasileirão Feminino. Yanne brilha e para pênalti de Bia Zaneratto.
Morte de pinguim em Praia Grande revela impacto de crise marinha no litoral
Cidades Morte de pinguim em Praia Grande revela impacto de crise marinha no litoral
A morte de um pinguim em Praia Grande alerta para a Síndrome do Pinguim Encalhado, reflexo de desequilíbrios ecológicos severos no Atlântico Sul.
Poesia no Pantanal: Casal de araras-azuis e ipê-roxo protagonizam imagem do dia
Pantanal Poesia no Pantanal: Casal de araras-azuis e ipê-roxo protagonizam imagem do dia
Conheça a história por trás da imagem que uniu o azul profundo das araras ao roxo vibrante dos ipês em um cenário deslumbrante no coração de Mato Grosso.
Tarifa zero em São Vicente: saiba como usar o ônibus de graça neste domingo
Cidades Tarifa zero em São Vicente: saiba como usar o ônibus de graça neste domingo
São Vicente adota tarifa zero no transporte público municipal neste domingo (30) para a Parada Cívica. Veja regras, horários e evite imprevistos no trânsito.