A psicanálise explica que o amor nasce da nossa vulnerabilidade e não da perfeição que ostentamos.
(Imagem: gerado por IA)
A frase soa como um verdadeiro balde de água fria nos românticos incuráveis: "Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer". Dita pelo psicanalista Jacques Lacan, essa máxima parece, à primeira vista, o roteiro de um fracasso anunciado. No entanto, ela guarda uma das chaves mais profundas para compreendermos por que, em pleno século XXI, as relações parecem tão conectadas e, ao mesmo tempo, tão vazias.
Para entender o que Lacan quis dizer, é preciso abandonar a ideia de que o amor é uma troca de presentes ou de qualidades. Quando ele afirma que damos "o que não se tem", ele fala da nossa própria falta. O amor verdadeiro não nasce da nossa perfeição ou do que temos de sobra, mas da nossa vulnerabilidade. Amar é admitir que somos incompletos e oferecer ao outro exatamente essa lacuna, essa fragilidade.
O paradoxo da completude impossível
Vivemos em uma era que nos exige sermos inteiros, produtivos e autossuficientes. O marketing pessoal e as redes sociais vendem a imagem de pessoas que "têm tudo". Mas, na lógica lacaniana, quem acredita ter tudo não pode amar. Se você está cheio de si, não há espaço para o outro. Por isso, dar o que não se tem é, na verdade, o maior ato de generosidade: é permitir que o outro veja nossa carência.
A segunda parte da frase, "a alguém que não o quer", é onde a ferida dói mais. Ela não significa que o outro nos rejeita, mas que o outro também busca algo que nós não podemos dar: a cura para a própria solidão dele. O ser amado quer ser completado, quer uma resposta para suas angústias, e nós só temos a oferecer a nossa própria falta de respostas. Esse desencontro é a base de todo relacionamento humano.
Bauman e a modernidade líquida: Por que os laços se rompem?
Se Lacan nos dá a base psicológica, o sociólogo Zygmunt Bauman nos oferece o contexto social. Em sua obra clássica "Amor Líquido", Bauman descreve a fragilidade dos laços humanos na atualidade. Para ele, vivemos tempos de conexões, não de relacionamentos. A diferença é sutil, mas devastadora.
Uma conexão pode ser desfeita com um clique, um "block" ou um silêncio visualizado. O amor moderno tornou-se um produto de consumo. Queremos o benefício do afeto, mas sem o custo da entrega. Quando o parceiro deixa de satisfazer nossas necessidades imediatas ou quando sua "falta" (aquilo que ele não tem) se torna evidente demais, nós o descartamos em busca de uma versão mais nova e supostamente mais completa.
O medo da entrega e o refúgio nos aplicativos
A fragilidade do amor moderno é alimentada pelo medo. Temos medo de sermos rejeitados se mostrarmos que não somos perfeitos. Por isso, a frase de Lacan se torna tão atual: raramente estamos dispostos a oferecer nossa falta. Preferimos oferecer um perfil editado no Instagram. No entanto, o desejo real só nasce quando as máscaras caem.
A grande ironia é que, ao tentarmos evitar o sofrimento da entrega, acabamos em um isolamento ainda maior. Buscamos em algoritmos a pessoa ideal, esquecendo que o amor só acontece no erro, no imprevisto e na aceitação de que ninguém vai nos salvar de nós mesmos.
Como sobreviver ao amor hoje?
Entender que o amor é o encontro de dois desamparados pode ser libertador. Em vez de buscar alguém que nos complete, talvez o caminho seja encontrar alguém que aceite nossa incompletude. O amor não é a solução para a solidão, mas a decisão de compartilhá-la com alguém.
Enquanto continuarmos querendo apenas o que o outro "tem" (beleza, status, segurança), estaremos fadados à liquidez de Bauman. Somente quando aceitarmos dar o que não temos é que poderemos, talvez, construir algo que resista à próxima atualização do sistema.