A área urbanizada em favelas brasileiras cresceu 152% entre 1985 e 2025, passando de 60,2 mil para 151,7 mil hectares. O resultado integra a Coleção 11 do MapBiomas, apresentada em 4 de novembro de 2026, e mostra que a expansão física desses territórios foi proporcionalmente maior que a urbanização brasileira como um todo, que avançou 132% no mesmo intervalo. A pesquisa utiliza dados espaciais para acompanhar mudanças no uso e na cobertura da terra, permitindo observar onde a ocupação avançou e como se relaciona com a vegetação e os riscos climáticos.
O aumento corresponde a aproximadamente 91,5 mil hectares adicionais de área urbanizada em favelas, equivalentes a 915 quilômetros quadrados. Esse número representa extensão territorial, não crescimento de população, número de famílias ou quantidade de moradias. O levantamento também não autoriza concluir que todos os locais analisados cresceram no mesmo ritmo: a expansão ocorreu de maneira desigual entre regiões e municípios.
Como a ocupação mudou entre 1985 e 2025
Em quatro décadas, a área urbanizada total do Brasil passou de aproximadamente 1,9 milhão para 4,4 milhões de hectares. Dentro desse processo, a participação das favelas no território urbanizado subiu de 3,2% para 3,4%. A variação percentual relativamente pequena na participação nacional não elimina a dimensão do crescimento absoluto dessas comunidades, que mais que dobraram sua extensão urbanizada.
O MapBiomas identificou cerca de 12,3 mil favelas em 651 municípios. Entre as comunidades analisadas, 9.895 já apresentavam área urbanizada em 1985. Desse conjunto, 42,4% pelo menos dobraram de tamanho até 2025. Outro dado relevante é que 60,3% da área urbanizada em favelas existente em 2025 surgiu depois de 1985, sinalizando a transformação intensa desses territórios ao longo do período.
O estudo registra a evolução da mancha construída observada nos mapas, e não a regularidade fundiária de cada imóvel. Tampouco mede diretamente a qualidade das moradias, o acesso a saneamento ou a renda dos habitantes. Essas dimensões exigem outras bases de dados para que se tenha um diagnóstico completo das condições urbanas.
Região Norte concentra parcela elevada da área em favelas
A região Norte reúne 27,9% da área urbanizada em favelas do Brasil, embora concentre apenas 9,4% da área urbanizada nacional. Essa diferença revela uma distribuição territorial desigual e chama a atenção para a importância de considerar as características regionais ao formular políticas de habitação e infraestrutura.
Manaus aparece como o município com a maior extensão urbanizada em favelas: cerca de 10,5 mil hectares distribuídos por 235 comunidades. A cidade de São Paulo, por sua vez, reúne 1.359 favelas, mas soma aproximadamente 6 mil hectares urbanizados nesses territórios. A comparação mostra por que número de comunidades e área ocupada são indicadores diferentes e não devem ser usados como sinônimos.
O levantamento não fornece, nos dados gerais apresentados, uma classificação detalhada das cidades da Baixada Santista. Portanto, não é possível atribuir percentuais específicos de crescimento a Santos, São Vicente, Praia Grande ou outros municípios da região sem consultar os recortes municipais correspondentes.
Disponibilidade de vegetação caiu proporcionalmente
A pesquisa identificou uma mudança importante na relação entre construções e cobertura vegetal. Em 1985, as favelas apresentavam cerca de 0,060 hectare de vegetação intraurbana para cada hectare urbanizado. Em 2025, o indicador recuou para 0,040 hectare, queda aproximada de 34% na disponibilidade proporcional de verde.
Isso não significa necessariamente que a extensão total de vegetação dentro das favelas tenha diminuído. A vegetação existente nesses territórios aumentou em termos absolutos, mas em ritmo inferior ao crescimento das áreas urbanizadas. O resultado foi uma menor quantidade de verde por hectare construído, indicador relevante para avaliar conforto térmico, drenagem e qualidade ambiental.
Fora das favelas, a tendência proporcional foi diferente: a disponibilidade de vegetação intraurbana aumentou aproximadamente 10%, de 0,042 para 0,046 hectare por hectare urbanizado. A comparação sugere que as oportunidades de arborização e preservação não acompanharam a expansão das comunidades na mesma proporção observada em outras partes das cidades.
Expansão em áreas naturais e terrenos suscetíveis a desastres
Segundo o MapBiomas, 54% do crescimento da área urbanizada em favelas ocorreu sobre áreas naturais. No conjunto da urbanização brasileira, a principal origem da expansão foi a conversão de pastagens, responsável por cerca de 38% do total. Esses resultados descrevem mudanças de uso do solo e ajudam a identificar pressões sobre a vegetação e outros ambientes.
O levantamento também verificou aumento da ocupação em terrenos classificados como de suscetibilidade muito alta a inundações e deslizamentos. Nas áreas suscetíveis a inundações, a extensão urbanizada em favelas cresceu 117% na comparação entre os períodos analisados. Em áreas suscetíveis a deslizamentos, o aumento foi de 12%.
Suscetibilidade é uma característica do terreno relacionada à possibilidade de ocorrência de determinado processo físico. Não equivale à confirmação de que uma enchente ou um deslizamento tenha ocorrido no local. Para avaliar o risco efetivo às famílias, é necessário combinar o mapeamento com informações sobre edificações, drenagem, ocupação, infraestrutura e exposição das pessoas.
Menos verde pode intensificar ilhas de calor
O estudo também relacionou a cobertura vegetal à temperatura da superfície em áreas urbanas. Nos setores censitários com até 10% de vegetação, a diferença média de temperatura da superfície no verão chegou a 5 graus Celsius em relação ao entorno não urbanizado. Em setores com 80% de cobertura vegetal, a diferença média foi de 1,1 grau Celsius.
Essas medidas se referem à temperatura da superfície captada na análise espacial, não à temperatura do ar medida por termômetros meteorológicos. A distinção é importante: o levantamento mostra a associação entre cobertura do solo e aquecimento superficial, mas não permite afirmar que todos os moradores experimentem exatamente a mesma variação térmica.
A vegetação pode contribuir para reduzir a absorção de calor, oferecer sombra e melhorar as condições ambientais. Em áreas densamente construídas, o espaço disponível para novas árvores costuma ser limitado, o que exige planejamento para compatibilizar arborização, circulação, redes de infraestrutura e segurança das edificações.
O que os dados significam para o planejamento das cidades
Os mapas oferecem uma base para identificar áreas onde a expansão urbana ocorreu mais rapidamente e onde a cobertura vegetal ficou relativamente escassa. Municípios podem utilizar esse tipo de informação para orientar investimentos em drenagem, contenção de encostas, arborização, saneamento e qualificação dos espaços públicos. O diagnóstico territorial, entretanto, precisa ser combinado com levantamentos locais e participação das comunidades para definir prioridades.
Na Baixada Santista, onde municípios convivem com áreas costeiras, encostas, planícies e diferentes padrões de ocupação, a discussão sobre adaptação climática também exige atenção às características de cada bairro. Os resultados nacionais do MapBiomas não substituem estudos municipais de risco nem permitem apontar automaticamente uma comunidade específica como área perigosa.
A pesquisa foi apresentada em evento na Universidade de São Paulo no Dia da Favela, com foco em urbanização e risco climático. Seu principal alerta é que a expansão física das comunidades precisa ser considerada nas políticas urbanas e ambientais, evitando que a ausência de infraestrutura e de espaços verdes aprofunde desigualdades existentes.
Como consultar o levantamento
Os resultados fazem parte da Coleção 11 do MapBiomas, que reúne mapas anuais de uso e cobertura da terra. O projeto disponibiliza informações públicas para pesquisadores, gestores e cidadãos interessados em acompanhar a transformação do território brasileiro. A apresentação sobre urbanização, favelas e risco climático pode ser consultada no portal oficial brasil.mapbiomas.org.
Ao interpretar os dados, é essencial manter a diferença entre área urbanizada, quantidade de comunidades, cobertura vegetal e risco ambiental. Cada indicador responde a uma pergunta distinta. Em conjunto, eles mostram que a urbanização em favelas avançou de forma intensa em quatro décadas e reforçam a necessidade de planejamento urbano que inclua os territórios populares.