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Estudo sobre carbono no Cerrado aponta estoque subterrâneo maior que a média amazônica e amplia alerta climático

13 mar 2026 - 06h05 Joice Gomes   atualizado às 07h52
Estudo sobre carbono no Cerrado aponta estoque subterrâneo maior que a média amazônica e amplia alerta climático Estudo sobre carbono no Cerrado revela estoque elevado em áreas úmidas, destaca risco climático e reforça a necessidade de proteção. (Imagem: Rafael Oliveira/Unicamp)

Um novo estudo sobre o carbono no Cerrado trouxe uma mudança importante para a compreensão do papel climático do bioma. A pesquisa indica que áreas úmidas do Cerrado, como veredas e campos úmidos, podem armazenar cerca de 1.200 toneladas métricas por hectare, volume que chega a superar em até seis vezes a densidade média registrada na Amazônia em comparações apresentadas pelos pesquisadores. O dado amplia o peso ambiental dessas paisagens, que por muito tempo foram tratadas de forma secundária nos debates sobre preservação e mudanças climáticas.

O estudo foi publicado na revista científica New Phytologist e envolveu pesquisadores de instituições brasileiras e internacionais, entre elas Unicamp, UFMG, Cary Institute of Ecosystem Studies, Instituto Max Planck e Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Segundo os autores, trata-se da primeira avaliação detalhada dos estoques de carbono no Cerrado presentes em solos dessas áreas úmidas, com investigação em profundidades muito maiores que as analisadas por levantamentos anteriores.

Isso importa porque a leitura tradicional sobre retenção de carbono costuma privilegiar grandes florestas, especialmente a Amazônia, enquanto o Cerrado aparece com menos destaque no imaginário público e em parte das políticas ambientais. A nova evidência mostra que o debate precisa considerar não apenas a vegetação de superfície, mas também o que está acumulado no subsolo, onde esse carbono no Cerrado permaneceu preservado ao longo de milhares de anos.

O que o estudo identificou

Os pesquisadores coletaram amostras de solo em profundidades de até quatro metros, um avanço relevante em relação a estudos anteriores, que investigavam camadas superficiais entre 20 centímetros e 1 metro. Essa diferença metodológica ajuda a explicar por que o estoque total de carbono no Cerrado vinha sendo subestimado em até 95%, segundo os dados apresentados no trabalho.

As análises também revelaram que parte expressiva desse material orgânico é muito antiga. Testes de datação por radiocarbono indicaram idade média de cerca de 11 mil anos, com registros acima de 20 mil anos, o que reforça que esse acúmulo não é recente nem facilmente recomposto caso haja degradação.

Na prática, isso significa que o estoque de carbono no Cerrado estudado funciona como uma reserva climática de longo prazo. Diferentemente de processos de recuperação mais rápidos em certos ambientes vegetais, a perda desse material acumulado no solo pode representar um dano persistente, com reposição extremamente lenta em escala humana e institucional.

  • As áreas analisadas foram veredas e campos úmidos do Cerrado.
  • O volume estimado chegou a cerca de 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare.
  • Estudos anteriores, por examinarem camadas mais rasas, subestimaram o estoque total em até 95%.
  • Parte do material orgânico encontrado tem idade média de 11 mil anos, com amostras acima de 20 mil anos.

Por que isso importa para o clima

O ponto central do estudo é que esse estoque pode deixar de ser um reservatório e passar a se transformar em fonte de emissões caso as condições ambientais sejam alteradas. Os autores alertam que, quando o solo seca, a matéria orgânica acumulada se decompõe mais rapidamente e libera dióxido de carbono e metano, dois gases associados ao aquecimento global.

O risco se torna ainda mais sensível porque a própria pesquisa identificou concentração maior de emissões durante a estação seca. As medições indicaram que cerca de 70% das emissões anuais de gases de efeito estufa desses ambientes ocorrem nesse período, quando a perda de umidade acelera a decomposição do material armazenado.

Essa conclusão amplia o sentido estratégico do carbono no Cerrado nas discussões sobre adaptação climática. Em um cenário de temperaturas mais altas e estiagens mais longas, o que hoje está guardado no subsolo pode ser liberado em volume crescente, agravando pressões ambientais e reduzindo a capacidade natural do bioma de funcionar como aliado no equilíbrio climático.

Quais são as ameaças práticas

O estudo associa o risco climático à expansão da agricultura, à drenagem de áreas úmidas e à retirada de água para irrigação. Essas intervenções mudam o regime hídrico dos solos, favorecem o ressecamento e criam as condições para a perda acelerada do carbono no Cerrado acumulado durante milênios.

Além da relevância climática, o Cerrado já é reconhecido por concentrar nascentes que alimentam aproximadamente dois terços das grandes bacias hidrográficas do país. O bioma ocupa cerca de 26% do território brasileiro e é descrito no estudo como a savana mais biodiversa do mundo, o que mostra que a pressão sobre suas áreas úmidas não afeta apenas uma variável ambiental, mas um conjunto de serviços ecológicos essenciais.

Os autores afirmam que até metade dessas áreas úmidas pode já ter sofrido algum tipo de degradação, apesar de a legislação prever proteção para esses ambientes. Esse dado sinaliza que a discussão sobre carbono no Cerrado não se limita à ciência acadêmica, porque envolve diretamente fiscalização, uso do solo, segurança hídrica e planejamento de longo prazo.

  • A expansão agrícola aparece entre os principais vetores de pressão sobre as áreas úmidas.
  • A drenagem e a retirada de água para irrigação alteram o equilíbrio dos solos e favorecem emissões.
  • Pesquisadores estimam que até metade dessas áreas já sofreu algum grau de degradação.
  • O bioma também tem papel decisivo no abastecimento de grandes bacias hidrográficas.

O que pode acontecer a partir de agora

A principal consequência imediata é a tendência de maior atenção científica e institucional às áreas úmidas do Cerrado. Como o estudo mostra que esse estoque de carbono no Cerrado era pouco considerado nos cálculos climáticos, a publicação pode influenciar diagnósticos mais completos sobre emissões, conservação e prioridades de proteção ambiental.

Também cresce a pressão para que políticas públicas tratem veredas e campos úmidos como estruturas centrais da regulação climática, e não apenas como áreas periféricas do ponto de vista produtivo. A defesa dos autores é por ampliação da proteção e por maior reconhecimento do papel climático desses ambientes, justamente porque a perda do carbono armazenado teria efeito difícil de reverter.

Do ponto de vista prático, o estudo reposiciona o debate nacional sobre preservação. Em vez de observar o Cerrado apenas pela ótica da conversão territorial, a nova evidência reforça que proteger o carbono no Cerrado significa preservar um patrimônio ecológico profundo, antigo e decisivo para o enfrentamento das mudanças climáticas nos próximos anos.

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