Planos de saúde coletivos atendem a 84% dos usuários do setor no Brasil.
(Imagem: gerado por IA)
Os beneficiários de planos de saúde coletivos começaram 2026 com uma notícia que mistura alívio e preocupação. De acordo com dados divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o reajuste médio anual praticado pelas operadoras nos dois primeiros meses do ano ficou em 9,9%. Embora o número represente a menor variação em cinco anos, ele ainda impõe um peso significativo sobre o orçamento das famílias e empresas, sendo mais que o dobro da inflação oficial do período.
Para se ter uma ideia do descompasso, enquanto os planos subiram quase dois dígitos, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou fevereiro de 2026 em 3,81%. Essa disparidade é o principal ponto de atrito entre órgãos de defesa do consumidor, como o Idec, e as operadoras de saúde. Enquanto os consumidores cobram reajustes mais próximos da realidade econômica do país, a ANS defende que o cálculo da saúde suplementar segue uma lógica própria, baseada não apenas nos preços, mas na frequência de uso de exames, consultas e internações.
O histórico recente e o impacto do isolamento
A última vez que o setor registrou um índice tão baixo foi em 2021, quando o reajuste médio foi de 6,43%. No entanto, aquele cenário foi atípico: em plena pandemia de covid-19, o isolamento social forçado fez com que milhões de brasileiros adiassem cirurgias eletivas e exames de rotina, reduzindo drasticamente os custos das operadoras. Desde então, os índices vinham em uma escalada preocupante, chegando a superar os 14% em 2023.
O recuo para 9,9% em 2026 sugere uma estabilização após o "represamento" de demandas do pós-pandemia, mas o mercado ainda opera sob pressão. Atualmente, o Brasil conta com cerca de 53 milhões de vínculos em planos de saúde, e a vasta maioria, cerca de 84% está na modalidade coletiva, seja ela empresarial ou por adesão através de sindicatos e associações.
Pequenas empresas pagam a conta mais alta
Um detalhe crucial dos dados da ANS revela uma desigualdade profunda no mercado: o porte do contrato define o tamanho da mordida no bolso. Nos dois primeiros meses de 2026, os grandes contratos (com 30 vidas ou mais) tiveram um reajuste médio de 8,71%. Já os pequenos contratos, que incluem microempresas e profissionais liberais com até 29 beneficiários, sofreram uma alta muito mais agressiva: 13,48%.
Essa diferença ocorre porque, nos planos coletivos com poucas vidas, as operadoras aplicam um reajuste único para todo o seu grupo de contratos desse porte, o que dilui o risco, mas frequentemente resulta em taxas mais elevadas do que as negociadas por grandes corporações, que possuem maior poder de barganha.
Lucro recorde em meio às queixas de custos
O cenário de reajustes acima da inflação ganha um contorno ainda mais polêmico quando confrontado com o desempenho financeiro das operadoras. Em 2025, o setor de saúde suplementar registrou uma receita total de R$ 391,6 bilhões, resultando em um lucro líquido acumulado de R$ 24,4 bilhões — o maior valor já registrado na história do setor no Brasil. Na prática, isso significa que para cada R$ 100 arrecadados, as empresas lucraram R$ 6,20 após todas as despesas.
Especialistas apontam que este lucro recorde coloca em xeque o argumento de que o setor vive uma crise de sustentabilidade que justificaria altas tão superiores aos índices inflacionários. O desdobramento esperado para o restante de 2026 é de uma vigilância maior por parte dos órgãos reguladores e uma pressão crescente por transparência nos cálculos de sinistralidade, que são a base para os aumentos anuais.