Letícia Carvalho é a primeira brasileira a comandar a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
(Imagem: gerado por IA)
A exploração das riquezas ocultas no leito oceânico, uma área que cobre mais de metade do planeta, está prestes a entrar em uma nova e decisiva fase. Sob a liderança da oceanógrafa brasileira Letícia Carvalho, a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) trabalha em ritmo acelerado para consolidar o chamado Código de Mineração. Este conjunto de regras internacionais será o divisor de águas entre a fase de pesquisa científica e o início da exploração comercial de minerais críticos em profundidades que podem chegar a 11 mil metros.
O que está em jogo no fundo do mar
A mineração em alto-mar não é apenas uma questão de engenharia, mas um pilar estratégico para a transição energética global. A demanda por metais como cobalto, níquel e manganês, essenciais para baterias de veículos elétricos e tecnologias de energia limpa, tem colocado os oceanos no centro de uma disputa geopolítica. A área gerida pela ISA, vinculada à ONU, abrange 54% dos oceanos, um território vasto onde a jurisdição nacional não alcança.
Segundo Letícia Carvalho, o objetivo é garantir que essa extração ocorra de forma sustentável, evitando danos irreversíveis a ecossistemas que o homem mal começou a compreender. "É a última fronteira onde os seres humanos ainda não realizaram atividades comerciais. Por isso, a necessidade de compatibilizar o desenvolvimento econômico com a proteção ambiental é fundamental", destacou a secretária-geral em entrevista exclusiva à Agência Brasil.
Do laboratório para o mercado global
Atualmente, o processo está em uma transição crucial. Após três décadas focadas em prospecção e estudos de viabilidade, a ISA planeja adotar o código regulatório final até o final de 2025. Isso permitirá que indústrias de segurança e energia acessem recursos em áreas onde países não possuem depósitos terrestres. A 31ª Sessão da ISA, programada para junho e julho, será o palco onde os 171 países membros tentarão selar o consenso necessário para o documento.
Para garantir a preservação, a Autoridade criou um "Biobanco" em parceria com o governo da Coreia do Sul. Este repositório obriga empresas e governos interessados na mineração a coletar e preservar amostras biológicas e de sedimentos por pelo menos 15 anos. O projeto, financiado pelos próprios investidores e não por impostos, já gerou o Deep Data, o maior banco de dados sobre fundos marinhos do mundo.
A liderança brasileira e a equidade de gênero
A ascensão de Letícia Carvalho ao posto mais alto da governança oceânica carrega um simbolismo histórico. Ela é a primeira mulher, a primeira cientista e a primeira representante da América Latina a ocupar o cargo. Formada em universidades públicas brasileiras, ela defende uma gestão pragmática e inclusiva, focada em quebrar a hegemonia masculina em setores tradicionalmente dominados por militares e pela indústria pesqueira.
"Trazer a liderança feminina é trazer uma tomada de decisão cuidadosa e inclusiva", afirma Letícia. Ela destaca que um de seus principais programas internos visa justamente formar novas lideranças femininas na diplomacia oceânica e garantir a presença segura de mulheres em expedições científicas e navios de exploração.
Desdobramentos e futuro
O sucesso do Código de Mineração definirá como a humanidade lidará com os recursos naturais nos próximos séculos. Se por um lado a indústria clama por regras claras para investir bilhões de dólares, ambientalistas e cientistas alertam para os riscos de uma atividade cujos impactos biológicos ainda são incertos. O desafio da brasileira à frente da ISA será equilibrar essas pressões, transformando o assoalho oceânico em uma fonte de riqueza que não comprometa a saúde do planeta azul.