Terreiro Tenda Oxum busca reconhecimento como patrimônio cultural imaterial em Santos.
(Imagem: Divulgação/Reprodução)
A luta pela preservação dos espaços de culto de matriz africana ganha um capítulo decisivo na Baixada Santista. Na próxima terça-feira (18), às 14h, lideranças e defensores do patrimônio cultural se reúnem com a superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em São Paulo (IPHAN-SP) para debater o futuro e a salvaguarda da Tenda Espírita de Umbanda Imaculada Conceição Oxum. O encontro, que ocorrerá em Santos, coloca sob os holofotes a urgência de proteger territórios sagrados que resistem há mais de meio século na região.
Mais de meio século de resistência e fé no litoral paulista
Fundada há mais de 50 anos, a Tenda Oxum representa muito mais do que um templo religioso para a comunidade de Santos. Ela se estabeleceu como um polo de acolhimento social, preservação de tradições orais e resistência cultural em um território historicamente marcado por tensões sociais. A trajetória da casa confunde-se com a própria expansão urbana da cidade, sobrevivendo às transformações do entorno e mantendo vivas as práticas rituais, as festividades e a transmissão de saberes ancestrais de geração em geração.
Historicamente, a Baixada Santista sempre foi um ponto de convergência de diversas correntes migratórias, o que enriqueceu o tecido cultural local, mas também gerou profundas desigualdades. Nesse cenário, os terreiros de Umbanda e Candomblé funcionaram como verdadeiros quilombos urbanos, oferecendo suporte espiritual, alimentar e emocional para as populações marginalizadas. A Tenda Oxum cumpre esse papel com maestria, acumulando um acervo imaterial que inclui cânticos, culinária sagrada e o uso medicinal de plantas nativas da Mata Atlântica.
O papel do IPHAN e a busca pelo reconhecimento institucional
O diálogo direto com a superintendência do IPHAN-SP sinaliza um avanço importante na busca por mecanismos formais de proteção. No Brasil, o tombamento de terreiros e a inscrição de suas práticas como patrimônio imaterial têm sido ferramentas fundamentais para combater o apagamento histórico e a violência patrimonial. O encontro visa traçar diretrizes técnicas para garantir que a estrutura física e as manifestações culturais da Tenda Oxum recebam a devida salvaguarda federal, impedindo que a especulação imobiliária e a falta de fomento ameacem sua existência.
Os desafios da preservação dos terreiros urbanos
Manter um terreiro ativo no coração de uma área urbana dinâmica como Santos impõe desafios complexos. Além da necessidade de manutenção estrutural de prédios frequentemente antigos, os templos de matriz africana enfrentam barreiras que vão desde a insegurança jurídica sobre a posse da terra até manifestações cotidianas de racismo religioso. A aproximação com órgãos de proteção do patrimônio como o IPHAN abre caminhos para a captação de recursos públicos, parcerias com universidades e o desenvolvimento de inventários detalhados, que documentam a relevância histórica da casa para a identidade caiçara e brasileira.
Especialistas em patrimônio apontam que a preservação de locais sagrados de matriz africana exige uma sensibilidade que vai além dos critérios tradicionais de tombamento arquitetônico. Não se trata apenas de proteger paredes e telhados, mas de garantir o livre exercício dos cultos, o acesso a áreas naturais essenciais para os rituais e a dignidade das comunidades tradicionais de terreiro. Por isso, a articulação política e técnica liderada pela Tenda Oxum junto ao IPHAN é um passo estratégico para que as especificidades da Umbanda sejam respeitadas pelas políticas públicas de cultura.
Um olhar para o futuro da memória afro-brasileira
A reunião da próxima terça-feira não encerra um processo, mas consolida uma nova fase de mobilização. O fortalecimento institucional da Tenda Oxum serve como modelo para outras casas de axé da Baixada Santista que também buscam reconhecimento. À medida que o poder público se compromete a escutar e validar essas memórias, cria-se um ambiente propício para que as futuras gerações compreendam a diversidade cultural do país de forma plena. A expectativa é que o encontro resulte em um plano de ação concreto, integrando a Tenda Oxum aos roteiros de turismo histórico, cultural e religioso da região, celebrando a riqueza de uma história que se recusa a ser esquecida.