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Documentário Cafuné reforça pedido de proteção coletiva a mulheres quilombolas ameaçadas e amplia pressão por políticas públicas

13 mar 2026 - 08h24 Joice Gomes   atualizado às 08h25
Documentário Cafuné reforça pedido de proteção coletiva a mulheres quilombolas ameaçadas e amplia pressão por políticas públicas O documentário Cafuné reforça o pedido por proteção coletiva a mulheres quilombolas ameaçadas e pressiona por políticas públicas efetivas. (Imagem: Joédson Alves/Agência Brasil)

O lançamento do documentário Cafuné recoloca no centro do debate público a situação de mulheres quilombolas que vivem sob ameaça e reivindicam mecanismos mais eficazes de proteção . Produzido a partir de uma iniciativa do coletivo de mulheres da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, a Conaq, o filme reúne relatos que mostram medo constante, insegurança dentro dos próprios territórios e dificuldades para garantir a continuidade da vida comunitária .

Mais do que apresentar histórias individuais, Cafuné foi concebido como parte de uma estratégia política mais ampla, que deverá ser levada ao governo federal e também ao Congresso Nacional em maio . A proposta das lideranças quilombolas é defender um modelo de proteção que não se limite a escoltas, medidas emergenciais ou respostas isoladas, mas que considere o território, a coletividade e as condições reais em que essas mulheres vivem .

Esse ponto ajuda a explicar por que o tema tem relevância imediata. Segundo a Conaq, ao menos 100 mulheres quilombolas vivem atualmente sob ameaça no país, cenário que expõe a insuficiência das respostas institucionais existentes e amplia a cobrança por uma política pública estruturada . Ao transformar essa realidade em narrativa audiovisual, Cafuné passa a funcionar também como instrumento de sensibilização política e social .

O que o documentário revela

De acordo com a reportagem, o documentário Cafuné foi lançado na quinta-feira, 12 de março, e integra um projeto de mesmo nome voltado à formulação de um plano de proteção e autocuidado para mulheres quilombolas . A direção do filme é assinada por Gabriela Barreto, Maryellen Crisóstomo e Nathália Purificação, dentro de uma construção articulada pela entidade nacional que representa comunidades negras rurais quilombolas .

O nome Cafuné não surge por acaso. Ele remete à ideia de acolhimento e aconchego para mulheres submetidas a riscos permanentes, marcados por conflitos agrários, vulnerabilidade social e deficiência de políticas públicas . Ao adotar esse símbolo, o projeto procura deslocar a discussão do campo exclusivo da repressão e da segurança para incluir cuidado, prevenção e proteção continuada .

A articuladora política da Conaq, Selma Dealdina, afirmou que a proposta a ser apresentada aos três Poderes parte da defesa de ações coletivas e comunitárias, e não apenas individuais . Essa formulação altera o eixo da discussão porque reconhece que a ameaça a lideranças quilombolas costuma estar ligada à disputa por terra, ao controle do território e à tentativa de desarticular formas coletivas de organização .

  • O filme faz parte de um projeto mais amplo que será apresentado oficialmente em maio .
  • A proposta central é criar um plano de proteção e autocuidado com foco coletivo e comunitário .
  • O documentário integra uma estratégia de sensibilização do poder público e do Congresso Nacional .

Por que o pedido ganhou urgência

A urgência em torno de Cafuné também está associada ao histórico recente de violência contra lideranças quilombolas . Segundo Selma Dealdina, o assassinato de Maria Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernadete, em agosto de 2023, aprofundou o temor entre lideranças e reforçou a percepção de que os mecanismos atuais de proteção precisam ser aperfeiçoados .

A reportagem informa ainda que, entre 2019 e 2024, 26 pessoas que vivem em comunidades quilombolas remanescentes foram assassinadas . Esse dado ajuda a dimensionar que o lançamento de Cafuné não ocorre em um ambiente abstrato de reivindicação, mas diante de um contexto concreto de violência letal, ameaças persistentes e fragilidade institucional .

Quando lideranças afirmam que muitas mulheres têm sido ameaçadas e mortas em seus próprios territórios, o debate passa a envolver não apenas segurança física, mas também permanência comunitária, preservação de vínculos sociais e continuidade de formas tradicionais de vida . Nesse sentido, Cafuné organiza uma denúncia que conecta violência, racismo estrutural, conflito fundiário e ausência de proteção estatal adequada .

  • Pelo menos 100 mulheres quilombolas vivem sob ameaça, segundo a Conaq .
  • Entre 2019 e 2024, 26 pessoas de comunidades quilombolas remanescentes foram assassinadas .
  • O caso de Mãe Bernadete é apontado como marco para a cobrança de novos mecanismos de proteção .

Proteção além da segurança pública

Um dos aspectos mais relevantes de Cafuné é a defesa de uma política de proteção que vá além da segurança pública em sentido estrito . Durante as oficinas de elaboração do plano, as lideranças definiram como prioridades temas como maior agilidade na titulação dos territórios, prevenção ao adoecimento e apoio à saúde mental .

Essa formulação amplia a compreensão sobre o que significa proteger defensoras de direitos humanos em comunidades tradicionais. Sem regularização territorial, acesso a serviços essenciais e atendimento psicológico, a proteção tende a se tornar parcial e incapaz de enfrentar os fatores que produzem vulnerabilidade de forma continuada . Assim, Cafuné propõe uma abordagem integrada, na qual território, saúde e dignidade aparecem como partes do mesmo problema .

A coordenadora nacional da Conaq, Cida Barbosa, destacou que as demandas variam conforme cada região e cada bioma, tanto no que diz respeito à violência quanto aos efeitos das mudanças climáticas . Ainda assim, ela apontou a saúde mental como uma urgência transversal, ao afirmar que o acesso a apoio psicológico segue deficiente e, em muitos casos, inacessível para mulheres quilombolas .

  • As prioridades do plano incluem titulação de territórios, prevenção ao adoecimento e saúde mental .
  • A proposta reconhece diferenças entre contextos locais, biomas e dinâmicas de violência .
  • A proteção defendida pelo projeto articula cuidado, permanência territorial e acesso a direitos .

Impactos práticos e próximos passos

O impacto prático de Cafuné está na tentativa de converter relatos de violência e vulnerabilidade em pressão institucional por medidas concretas . A previsão é que o projeto seja apresentado oficialmente aos três Poderes em maio, mês em que também estão programados uma solenidade no Congresso Nacional pelos 30 anos de luta da Conaq e o 3º Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas .

O tema encontra, ao menos em parte, abertura dentro do governo federal. A secretária nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Élida Lauris dos Santos, afirmou que a demanda das comunidades quilombolas está alinhada ao entendimento do governo sobre a necessidade de proteção coletiva e ao compromisso de aprofundar a perspectiva racial e de gênero no plano nacional da área .

Se essa convergência política resultar em medidas concretas, Cafuné poderá deixar de ser apenas um documentário de denúncia para se tornar referência na formulação de uma política pública mais ampla . Caso contrário, o filme tende a permanecer como registro contundente de uma realidade em que mulheres quilombolas seguem expostas a ameaças, adoecimento e barreiras de acesso a direitos básicos .

A própria reportagem acrescenta um dado que reforça essa dimensão estrutural. Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz citada no texto mostrou que a população quilombola adulta morre mais por causas evitáveis do que a população em geral, enquanto 55% das comunidades não têm acesso à água potável, 54% não possuem rede de esgoto e 51% não contam com coleta de lixo . Esses indicadores mostram que a discussão impulsionada por Cafuné ultrapassa a proteção emergencial e alcança o debate sobre cidadania, infraestrutura e justiça social .

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