São Paulo | 17ºC
Sáb, 11 de Julho
Internet Segura

ECA Digital e condenações ao Meta e Google nos EUA reforçam proteção de crianças e adolescentes na internet

29 mar 2026 - 11h16 Joice Gomes   atualizado em 30/03/2026 às 08h19
ECA Digital e condenações ao Meta e Google nos EUA reforçam proteção de crianças e adolescentes na internet Novos julgamentos contra Meta e Google nos Estados Unidos e a entrada em vigor do ECA Digital no Brasil reforçam obrigações de plataformas para proteger crianças e adolescentes na internet. (Imagem: Marcello Casal jr/Agência Brasil)

Duas grandes mudanças em março de 2026 reforçam a ideia de que a internet está sendo obrigada a se tornar um ambiente mais seguro, especialmente para crianças e adolescentes. Enquanto os Estados Unidos produziram duas condenações importantes contra o Meta e o Google, o Brasil viu o ECA Digital (Lei 15.211/2025) começar a valer em pleno, com novas regras para serviços digitais que atuam no país.

A combinação desses marcos – um conjunto de decisões judiciais em solo norte‑americano e a nova legislação protecionista brasileira – cria um cenário em que plataformas não podem mais alegar apenas “neutralidade” para se eximir de responsabilidades. Em vez disso, são chamadas a revisar o design de seus apps, limitar o tempo de uso e filtrar conteúdos inadequados, sob pena de pagar multas, indenizações e enfrentar fiscalização mais rígida.

Julgamentos nos Estados Unidos contra Meta e Google

Em 24 de março de 2026, um júri em Santa Fe, capital do Novo México, decidiu que o Meta – dono de Facebook, Instagram e WhatsApp – deve ser responsabilizado por não adotar medidas concretas para impedir que crianças e adolescentes fossem expostas a conteúdos impróprios, incluindo material de abuso sexual por adultos.

Além disso, a Justiça determinou o pagamento de cerca de 375 milhões de dólares como pena à coletividade, um valor simbólico que sinaliza a gravidade da acusação: a empresa foi visto como omisso diante de mecanismos que, por falta de proteção, facilitaram o acesso de menores a conteúdos altamente perigosos.

Indenização por “vício digital” e efeitos na saúde mental

Um dia depois, em Los Angeles, na Califórnia, um segundo júri entendeu que plataformas do Meta e do Google (YouTube) foram desenhadas para criar dependência: o uso de rolagem infinita, notificações constantes, reprodução automática de vídeos e recompensas intermitentes como “curtidas” teria levado uma jovem de cerca de 20 anos – identificada apenas como Kaley – a desenvolver transtorno dismórfico corporal, depressão e pensamentos suicidas na adolescência.

Como consequência, o júri determinou que as duas empresas paguem ao todo 6 milhões de dólares em indenização à vítima. A decisão marca um ponto de inflexão, ao tratar mecanismos de design como parte central do problema, não apenas como consequência neutra da tecnologia.

Design manipulativo e a “economia da atenção”

Segundo especialistas brasileiros, esses julgamentos mostram que plataformas usam recursos de design manipulativo – como algoritmos que aprendem interesses, gostos e comportamentos dos usuários e que seguem padrões “obscuros”, isto é, opacos para quem está apenas olhando para a tela.

Ricardo Horta, diretor de segurança e prevenção de riscos no ambiente digital do Ministério da Justiça e Segurança Pública, compara esse tipo de design a produtos que, em vez de buscar segurança e bem‑estar do usuário, têm como objetivo principal maximizar o tempo de uso. E Georgia Cruz, professora da Universidade Federal do Ceará, lembra que as empresas lucram com essa “econom.populate\text{da atenção}”, enquanto usuários ficam sobrecarregados com impactos emocionais, sociais e de comportamento.

Fim da “imunidade” das big techs?

Para Horta, esses julgamentos quebram um paradigma: pela primeira vez fica explícito que esses mecanismos existem e que têm impacto direto na saúde e no bem‑estar do consumidor. Ainda que em decisões estaduais, os casos rompem com a lógica segundo a qual as plataformas não poderiam ser responsabilizadas pelos conteúdos postados por terceiros.

Paulo Rená da Silva Santarém, pesquisador do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (Iris), destaca que, em vez de focar apenas no conteúdo, as ações passaram a ver “como as redes sociais funcionam”. Também o advogado Marcos Bruno, especialista em direito digital, considera que essas decisões reforçam o debate global sobre até que ponto o design das plataformas contribui para uso excessivo entre jovens.

O ECA Digital no Brasil: regras para plataformas

No Brasil, em 17 de março de 2026 entrou em vigor a Lei 15.211/2025, o chamado ECA Digital, regulamentado no dia seguinte pelo Decreto 12.880, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A norma impõe aos serviços digitais o dever de prevenir e mitigar riscos ligados ao acesso de crianças e adolescentes a conteúdos inadequados.

Segundo a professora Mylena Devezas Souza, da Universidade Federal Fluminense, a lei exige que as plataformas sejam estruturadas de modo a oferecer experiências adequadas à idade do usuário e que disponibilizem configurações e ferramentas acessíveis, permitindo maior controle do tempo de uso e dos conteúdos visualizados.

Supervisão parental e responsabilidade compartilhada

O ECA Digital determina que as plataformas devem facilitar a supervisão parental, permitindo que responsáveis limitem ou restrinjam o uso das redes sociais, filtrem conteúdos e monitorem o tempo de tela. Wladimir Gramacho, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC‑UnB), destaca que, hoje, os pais precisam acompanhar a exposição dos filhos, porque o adulto também é “capturado” pelas mesmas telas.

Assim, a segurança digital de crianças e adolescentes passa a ser vista como uma responsabilidade compartilhada entre Estado, empresas e família. Além disso, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) reforça que qualquer pessoa que presenciar violação de direitos deve denunciar pelos canais de denúncia que as plataformas serão obrigadas a manter.

Conexão entre EUA e Brasil: novos padrões globais

  • Os julgamentos nos Estados Unidos e o ECA Digital no Brasil convergem no foco na saúde mental e na segurança de usuários jovens on‑line.
  • Ambos exigem que plataformas adotem medidas proativas, como filtros de idade, limites de tempo, moderação antecipada e transparência sobre algoritmos.
  • Para especialistas, essas decisões podem influenciar jurisprudências e leis em outros países, elevando o patamar mínimo de proteção de crianças e adolescentes na internet.

Em resumo, março de 2026 marcou um passo claro no sentido de que plataformas digitais não poderão mais tratar ligações diretas entre design, uso compulsivo e danos à saúde mental como mera coincidência. Com o ECA Digital e com os julgamentos ao Meta e ao Google, a tendência é que regras mais rígidas sobre transparência, segurança e bem‑estar digital se espalhem em direção a um padrão global mais exigente.

Leia Também
Praça Onze Maravilha: Rio de Janeiro lança projeto de revitalização bilionário para transformar o berço do samba
Sambódromo Praça Onze Maravilha: Rio de Janeiro lança projeto de revitalização bilionário para transformar o berço do samba
Alerta de tempestade: Inmet prevê chuva de granizo e queda de temperatura no Sul neste fim de semana
Alerta de tempestade Alerta de tempestade: Inmet prevê chuva de granizo e queda de temperatura no Sul neste fim de semana
MP pede R$ 120 milhões de Virgínia Fonseca e Blaze por publicidade de apostas
Ação civil pública MP pede R$ 120 milhões de Virgínia Fonseca e Blaze por publicidade de apostas
Megaoperação contra o crime organizado mobiliza 16 estados e mira roubo de cargas na Baixada Santista
Cotidiano Megaoperação contra o crime organizado mobiliza 16 estados e mira roubo de cargas na Baixada Santista
Ameaça sob a terra: Brasil tem 213 barragens críticas e queda inédita na fiscalização
Barragens críticas Ameaça sob a terra: Brasil tem 213 barragens críticas e queda inédita na fiscalização
Justiça proíbe plataforma de aposta esportiva por fraude no Rio de Janeiro
Plataforma de aposta esportiva Justiça proíbe plataforma de aposta esportiva por fraude no Rio de Janeiro
Supertufão Bavi atinge ilhas americanas com força máxima e deixa rastro de destruição no Pacífico
Com ventos catastróficos Supertufão Bavi atinge ilhas americanas com força máxima e deixa rastro de destruição no Pacífico
Pé-de-Meia de 2026 paga 4ª parcela do incentivo de frequência a nascidos em novembro e dezembro
Pé-de-Meia Pé-de-Meia de 2026 paga 4ª parcela do incentivo de frequência a nascidos em novembro e dezembro
Muito além do Carnaval: Como Vera Lacerda transformou o Ara Ketu em escudo contra a desigualdade social
Fundadora do Ara Ketu Muito além do Carnaval: Como Vera Lacerda transformou o Ara Ketu em escudo contra a desigualdade social
Lapa ganha Distrito de Arte e Cultura e Boulevard Selarón em revitalização histórica
A Lapa Lapa ganha Distrito de Arte e Cultura e Boulevard Selarón em revitalização histórica
Mais Lidas
Copa do Mundo de 2026 quebra marcas históricas de gols, público e lendas do futebol
Copa dos recordes Copa do Mundo de 2026 quebra marcas históricas de gols, público e lendas do futebol
A Copa de 2026 quebra recordes históricos com mais de 5 milhões de torcedores nos estádios e disputas intensas de artilharia entre Messi e Mbappé.
Ditadura militar: proposta quer cobrar de empresas o custo de indenizações a perseguidos políticos
Comissão de Anistia Ditadura militar: proposta quer cobrar de empresas o custo de indenizações a perseguidos políticos
Proposta na Comissão de Anistia defende que o Estado brasileiro cobre na Justiça as empresas que apoiaram a ditadura militar pelas indenizações pagas.
Alerta de ressaca no Rio: Marinha prevê ondas de até 2,5 metros e exige cautela na orla
Frente fria Alerta de ressaca no Rio: Marinha prevê ondas de até 2,5 metros e exige cautela na orla
A Marinha do Brasil emitiu alerta de ressaca para o litoral do Rio de Janeiro, com ondas de até 2,5 metros. Veja os horários de pico e recomendações de segurança.
Defeso eleitoral: o que muda com início das proibições para candidatos e governos
Defeso eleitoral Defeso eleitoral: o que muda com início das proibições para candidatos e governos
Começam a valer as regras do defeso eleitoral. Saiba o que governos e candidatos não podem fazer a partir de agora e o impacto nos serviços públicos.