A Praia do Tombo, em Guarujá, enfrenta o desafio de manter sua infraestrutura e selo ambiental diante da erosão.
(Imagem: gerado por IA)
O avanço do mar deixou de ser uma previsão alarmista para o futuro e se tornou uma emergência urbana imediata em Guarujá. A cidade, um dos principais polos turísticos do litoral paulista, enfrenta agora o desafio de conter a erosão costeira que já castiga 13 de suas praias. O cenário mais preocupante se desenha justamente na Praia do Tombo, um ícone mundial de preservação que ostenta, há 16 anos consecutivos, o prestigiado selo Bandeira Azul.
O símbolo da preservação em risco
A Praia do Tombo não é apenas um local de lazer; é um patrimônio ambiental reconhecido internacionalmente. O selo Bandeira Azul atesta a qualidade da água, a gestão ambiental, a segurança e os serviços oferecidos. No entanto, o avanço constante das marés e a força das ressacas têm reduzido drasticamente a faixa de areia, colocando em xeque as estruturas que sustentam essa certificação. Manter esse recorde mundial exige um padrão de excelência que a própria natureza, impulsionada pelas mudanças climáticas, está tornando cada vez mais difícil de sustentar.
Especialistas apontam que a erosão em Guarujá é um processo complexo, alimentado tanto pelo aumento do nível do mar quanto pela ocupação urbana histórica que impediu a regeneração natural das dunas. Sem o estoque de areia que as dunas proviam, as ondas batem diretamente nas estruturas rígidas, como calçadões e muretas, acelerando o processo de degradação.
Um problema que se estende por toda a orla
Embora o Tombo chame a atenção pelo seu status global, o problema é sistêmico. Das 27 praias da cidade, quase metade apresenta sinais claros de degradação pela força do oceano. Praias populares como a Enseada e Pitangueiras também sofrem com a perda de sedimentos. Para o morador e para o comerciante local, o impacto é direto: calçadões destruídos, prejuízos estruturais e uma redução visível no espaço disponível para os banhistas durante a alta temporada.
O que está em jogo não é apenas a paisagem, mas a própria economia da Baixada Santista. O turismo é o motor vital de Guarujá, e a degradação da orla afeta diretamente o valor dos imóveis e a atratividade do destino para visitantes nacionais e estrangeiros.
Possíveis soluções e o futuro das praias
A administração municipal e órgãos ambientais buscam alternativas que vão desde o engordamento da faixa de areia, técnica já utilizada com relativo sucesso em Balneário Camboriú e Matinhos, até a construção de barreiras submersas que possam dissipar a energia das ondas antes que elas atinjam a costa. No entanto, essas intervenções são caras, complexas e exigem estudos de impacto ambiental profundos para evitar que a solução em uma praia cause problemas ainda maiores na vizinha.
O que se vê hoje em Guarujá é um microcosmo de um desafio global. A gestão costeira precisará de uma mudança de paradigma, saindo do modo reativo (reparar estragos após ressacas) para uma estratégia de adaptação de longo prazo. A continuidade do selo Bandeira Azul na Praia do Tombo dependerá não apenas da limpeza da areia, mas de uma engenharia sofisticada que respeite a nova dinâmica do oceano.
Enquanto o mar continua a ganhar terreno, o tempo corre contra as estruturas urbanas. O próximo passo das autoridades definirá se o paraíso do litoral paulista conseguirá manter seu brilho ou se terá que se reinventar diante de um litoral em constante retração.