Nova biofábrica da Flyttr em Campinas tem capacidade para produzir 190 milhões de ovos do mosquito com bactéria Wolbachia por semana.
(Imagem: Flyttr Brasil/Divulgação)
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu um passo decisivo para transformar a escala do combate às arboviroses no Brasil. A agência autorizou, por unanimidade, a empresa Flyttr (antiga Oxitec) a produzir mosquitos Aedes aegypti portadores da bactéria Wolbachia. O microrganismo, inofensivo para os seres humanos, impede que os vírus da dengue, Zika, chikungunya e febre amarela se desenvolvam dentro do inseto, interrompendo o ciclo de transmissão das doenças.
A autorização quebra o monopólio de fornecimento que até então pertencia à Wolbito do Brasil, uma parceria entre o World Mosquito Program (WMP) e a Fiocruz. A chegada de um novo competidor privado promete não apenas baratear os custos de aquisição pública, mas também preencher uma lacuna urgente de capacidade produtiva em um momento crítico. O Brasil lidera o ranking mundial de casos prováveis de dengue, acumulando mais de 65% das notificações globais segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A tecnologia que desafia as temperaturas extremas
A fábrica da Flyttr, localizada em Campinas, interior de São Paulo, possui capacidade para gerar 190 milhões de ovos de mosquitos por semana. A grande inovação regulatória, no entanto, vai além do volume. O aval da Anvisa contempla o uso de uma linhagem inédita da bactéria no país, denominada wAlbB. Diferente da cepa tradicional usada anteriormente (wMel), esta nova linhagem apresenta uma alta tolerância a temperaturas extremas.
Essa resistência térmica é crucial para viabilizar a metodologia em municípios do Norte, Nordeste e do interior do Sudeste, onde o calor intenso historicamente limitava a eficácia e a sobrevivência dos mosquitos com Wolbachia. A cepa já foi validada e utilizada com sucesso em nações de clima quente na Ásia, como Cingapura e Malásia.
Logística simplificada por meio de caixas ativáveis
Outro diferencial competitivo da Flyttr reside em sua cadeia de distribuição. Ao contrário do modelo logístico tradicional, que exige laboratórios locais para a soltura de mosquitos adultos voadores, a empresa aposta em uma tecnologia de caixas portáteis de liberação. Os ovos são enviados desidratados e lacrados diretamente para as cidades parceiras. Ao chegarem ao destino, agentes de saúde locais precisam apenas adicionar água limpa ao recipiente para ativar o nascimento e a dispersão dos insetos modificados.
Esse método reduz significativamente o custo de infraestrutura dos municípios, permitindo redirecionar recursos públicos para aumentar a área de cobertura das ações preventivas. A otimização logística viabiliza um ganho de escala sem precedentes para o programa nacional.
Redução drástica de casos e os próximos passos na saúde pública
Os dados de vida real sustentam o entusiasmo da comunidade médica e científica. Em Niterói, no Rio de Janeiro, o primeiro município brasileiro a cobrir totalmente seu território com o método Wolbachia, registrou-se uma queda de 89% nos diagnósticos de dengue no último ano. Na Indonésia, estudos randomizados apontaram redução de 77% na incidência e de 86% nas internações hospitalares causadas pela doença.
A nova permissão da Anvisa tem validade de cinco anos e restringe a produção de Campinas exclusivamente para o Programa Nacional de Controle das Arboviroses do Ministério da Saúde. Com o estoque estratégico já sendo produzido pela Flyttr, o governo federal ganha um reforço robusto para blindar as cidades na próxima temporada sazonal de chuvas, que costuma registrar os picos epidêmicos do vírus.