Trabalhador agrícola em plantação; custo de alimentos nutritivos desafia políticas de combate à fome no mundo.
(Imagem: FAO/Albert Gonzalez Farran)
O combate à fome global registrou uma importante vitória estatística, mas os desafios estruturais continuam a expor a fragilidade da segurança alimentar no planeta. O relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026 (SOFI), produzido em conjunto por cinco agências das Nações Unidas, revelou que a população mundial em situação de fome recuou pelo terceiro ano consecutivo, totalizando 645 milhões de pessoas em 2025. O índice representa um declínio de quase 14 milhões de indivíduos em relação a 2024, consolidando uma trajetória de queda desde os piores momentos da pandemia.
Apesar do avanço numérico, o cenário internacional revela uma profunda desigualdade no acesso a alimentos de qualidade. Enquanto parcelas significativas da Ásia e da América Latina mostram recuperação, a alta inflação dos alimentos nutritivos cria um fosso intransponível para bilhões de pessoas. Atualmente, o custo diário para se alimentar de forma saudável atingiu níveis recordes, transformando a nutrição adequada em um privilégio econômico de difícil alcance para as populações de baixa renda.
A radiografia da fome e a disparidade entre os continentes
O relatório SOFI 2026, divulgado na sede da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) em Roma, aponta que 7,8% da população mundial sofria de fome em 2025. Esse patamar demonstra uma retração consistente quando comparado aos 8,6% de 2020 e aos 8,1% de 2024. No entanto, o otimismo das médias globais evapora quando os dados são analisados de forma regionalizada.
A África desponta como o território mais crítico da crise humanitária. O continente abriga 309 milhões de pessoas famintas, o que significa que uma em cada cinco pessoas enfrentou a privação de alimentos em 2025. A situação de insegurança alimentar moderada ou severa afeta impressionantes 56,6% dos africanos, uma taxa brutalmente superior aos 22,9% registrados na América Latina e no Caribe, e aos escassos 8,7% observados na América do Norte e Europa.
O paradoxo econômico: a inflação do prato saudável
O verdadeiro gargalo para a erradicação da fome reside no custo financeiro da nutrição de qualidade. O estudo indica que 2,69 bilhões de pessoas não conseguiam arcar com as despesas de uma dieta saudável em 2025. Para medir essa disparidade de forma comum e justa, as Nações Unidas utilizam a Paridade do Poder de Compra (PPC), ajustando as moedas ao custo de vida local de cada nação.
Sob essa ótica, o custo médio global de uma dieta saudável saltou para US$ 4,28 PPC por pessoa ao dia em 2025, um aumento substancial frente aos US$ 3,44 de 2021. Paradoxalmente, a América Latina e o Caribe registram o custo diário mais elevado do planeta para se comer de forma saudável: US$ 4,91 PPC. No Brasil, a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, alertou na sessão do Comitê de Agricultura da FAO que a volatilidade dos preços de alimentos básicos sabota os esforços públicos e perpetua a vulnerabilidade.
A vulnerabilidade de gênero e as sequelas no desenvolvimento infantil
A desigualdade de gênero continua sendo uma barreira para a equidade alimentar. Mulheres e crianças nas regiões periféricas e rurais absorvem os piores impactos da crise nutricional. Apenas 62,7% das mulheres em idade fértil conseguem atingir a diversidade alimentar mínima considerada saudável. Na África, essa taxa despenca para preocupantes 43%.
A infância sofre com marcas profundas que limitam o desenvolvimento das próximas gerações. Atualmente, 150 milhões de crianças menores de 5 anos enfrentam atraso de crescimento devido à desnutrição crônica. Apenas 30,8% dos bebês entre 6 e 23 meses recebem refeições com diversidade de nutrientes suficiente. Em contrapartida, o relatório adverte para a epidemia silenciosa da obesidade em adultos, que escalou para 16,2% mundialmente, descumprindo as metas de contenção propostas para a década.
Instabilidade geopolítica e os desafios para o futuro próximo
A trajetória de queda na fome global corre sérios riscos de reversão nos próximos anos. As projeções da FAO destacam que fatores climáticos severos, como os reflexos tardios do fenômeno El Niño, combinados com a escalada de conflitos armados no Oriente Médio e no Leste Europeu, criam um ambiente de extrema instabilidade. O diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, defendeu a necessidade urgente de blindar e modernizar os sistemas agroalimentares contra choques logísticos e climáticos.
O grande teste para a comunidade internacional até 2030 será a capacidade de reverter o corte sistemático no financiamento humanitário e na ajuda oficial ao desenvolvimento. Sem investimentos robustos em infraestrutura de distribuição, tecnologia de plantio sustentável e reformas tributárias que facilitem o comércio de alimentos frescos, a meta de erradicação da fome permanecerá distante, limitada a uma aspiração diplomática em relatórios anuais.