Imagem aérea de área de floresta preservada na Amazônia sob luz solar intensa.
(Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil)
A queda acentuada na área queimada no Brasil em 2025 traz um alívio temporário para a agenda ambiental do país. Segundo o levantamento anual do MapBiomas divulgado nesta terça-feira, o país registrou 12,7 milhões de hectares consumidos pelo fogo ao longo do ano, um volume 31% inferior à média histórica das últimas quatro décadas. Embora o recuo ajude a frear uma escalada destrutiva de anos anteriores, especialistas alertam que a velocidade com que o fogo retorna às mesmas áreas ameaça a capacidade de regeneração das florestas tropicais.
O motor da queda: A histórica retração na Amazônia e no Pantanal
A dinâmica de queda foi fortemente influenciada pelo desempenho da Amazônia e do Pantanal. O bioma amazônico, historicamente pressionado pelo desmatamento e pelo uso do fogo para abertura de pastagens, viu a área queimada despencar de 15,8 milhões de hectares em 2024 para 3,1 milhões de hectares em 2025. Trata-se do menor índice registrado no bioma em 41 anos, período que compreende toda a série histórica monitorada pelo MapBiomas desde 1985.
No Pantanal, a redução proporcional foi ainda mais drástica. A maior planície alagável do mundo registrou apenas 121 mil hectares atingidos pelas chamas em 2025, o que representa um recuo severo de 85,6% em relação à sua média histórica. Essa trégua climática e de fiscalização deu fôlego a uma região severamente castigada por secas consecutivas nos anos anteriores.
A ameaça invisível da recorrência rápida do fogo
Por trás dos números positivos, contudo, reside uma armadilha ecológica. O relatório acende um alerta vermelho sobre a chamada recorrência do fogo: a frequência com que uma mesma área volta a queimar. Do total do território brasileiro atingido pelas chamas desde 1985, nada menos que 64% queimou mais de uma vez. Mais alarmante ainda é o intervalo dessa reincidência: 52% das áreas voltam a registrar incêndios em um prazo de apenas quatro anos.
Na Amazônia, o ciclo é ainda mais acelerado, com 31,6% da área queimada voltando a pegar fogo em até dois anos. Segundo Luiz Felipe Martenexen, pesquisador da equipe MapBiomas Fogo e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), esse curto intervalo impede que a vegetação nativa, que não possui adaptação natural ao fogo, inicie qualquer processo de regeneração. A floresta entra em uma espiral de degradação contínua, tornando-se progressivamente mais seca e vulnerável a episódios mais severos.
Cerrado sob pressão e o avanço preocupante na Caatinga
Em que pese o respiro da floresta tropical, o Cerrado manteve seu posto como o bioma mais fustigado pelo fogo no país, somando 8,7 milhões de hectares queimados em 2025. Embora o número seja ligeiramente menor que a média histórica de 9,6 milhões, a savana brasileira concentra a maior recorrência do país: 66% de tudo o que queimou ali desde o início da série histórica pegou fogo múltiplas vezes. Vera Laísa Arruda, também pesquisadora do Ipam, reforça que o regime atual de queimadas ultrapassa o limite da resiliência ecológica do bioma, gerando perda irreversível de biodiversidade.
Em contrapartida à tendência nacional de declínio, a Caatinga seguiu na contramão. Único bioma a registrar aumento de queima em 2025, o território semiárido viu 505 mil hectares virarem cinzas, acendendo um alerta sobre a desertificação e os impactos diretos das mudanças climáticas no Nordeste brasileiro.
O peso do uso humano e a concentração geográfica
O raio-x do MapBiomas revela ainda uma forte concentração geográfica da destruição. Três estados Mato Grosso, Pará e Maranhão concentram quase metade (47%) de toda a área queimada no Brasil nas últimas quatro décadas. Em nível municipal, a liderança histórica do fogo pertence a Corumbá (MS) e São Félix do Xingu (PA).
O levantamento mostra que a ação humana dita o ritmo das chamas de forma distinta entre as regiões. Enquanto na Amazônia e na Mata Atlântica o fogo em áreas antrópicas (como pastagens e lavouras) já predomina e responde por mais de 50% dos registros, no Cerrado, Pantanal e Caatinga as chamas ainda consomem majoritariamente a vegetação nativa. Os próximos anos serão decisivos para consolidar as políticas públicas de controle ou se o Brasil enfrentará novas ondas de degradação impulsionadas pelo El Niño e extremos climáticos.