Barulho gerado por motores de embarcações turísticas abafa os sons vitais emitidos pelos peixes nos recifes de corais.
(Imagem: Edmar Paz/Divulgação)
Sob as águas cristalinas do litoral brasileiro, um coro invisível e vital está sendo silenciado. O som de motores de lanchas, motos aquáticas e até a agitação de banhistas estão gerando um colapso na comunicação dos peixes, comprometendo a sobrevivência de espécies e ameaçando o equilíbrio dos recifes de corais. O alerta vem de uma pesquisa pioneira da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que expõe como a poluição sonora do turismo de massa afeta a biodiversidade subaquática brasileira.
O estudo, publicado na revista científica Neotropical Ichthyology pela Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI) e divulgado pela Agência Bori, mapeou a paisagem sonora marinha e trouxe dados alarmantes. O ruído humano funciona como uma barreira física invisível, impedindo que os animais executem tarefas básicas do cotidiano, como se alimentar, reproduzir e defender seus territórios.
O fenômeno do mascaramento acústico
Para entender a gravidade do problema, é preciso desmistificar a ideia de que o oceano é um mundo de silêncio. Muitas espécies de peixes se comunicam ativamente por meio de estalidos, pulsos e sequências sonoras rítmicas. Esses sinais servem para atrair parceiros sexuais, alertar sobre predadores e demarcar território em áreas de recifes disputadas.
De acordo com o biólogo Túlio Freire Xavier, pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE e um dos autores do estudo, o excesso de ruído artificial provoca o chamado "mascaramento acústico". Esse fenômeno impede que as frequências sonoras dos peixes sejam ouvidas. Em outros casos, ocorre a supressão comportamental: assustados ou confusos com o barulho, os animais simplesmente deixam de emitir qualquer som.
Gravações subaquáticas revelam o sumiço dos sons
A metodologia da pesquisa envolveu tecnologia de ponta e esforço físico extremo. Os pesquisadores instalaram gravadores subaquáticos especiais em duas das praias mais cobiçadas do litoral de Pernambuco: a Praia de Carneiros (na Área de Proteção Ambiental de Guadalupe) e Tamandaré (na APA Costa dos Corais). Ao todo, foram registradas 80 horas de áudio contínuo durante a alta temporada de verão e períodos de transição.
Em paralelo, mergulhadores realizaram censos visuais, contabilizando cerca de 1.400 peixes de até 23 espécies diferentes. O resultado acústico impressionou: dos nove tipos de sons naturais identificados na pesquisa, três desapareceram por completo nos pontos com forte fluxo de embarcações e banhistas. Nas áreas onde barreiras de recifes naturais atenuavam o som externo, os peixes continuavam a se comunicar normalmente.
O impacto em Abrolhos, Fernando de Noronha e na economia local
O problema de poluição sonora identificado em Pernambuco não é isolado. O estudo acende um alerta vermelho para outros santuários ecológicos do Brasil, como o arquipélago de Fernando de Noronha e o Parque Nacional Marinho de Abrolhos. Onde houver turismo náutico intenso sem regulação, a fauna marinha estará sob severo estresse acústico.
As consequências desse silêncio forçado vão muito além da biologia. Os peixes recifais desempenham papéis ecológicos cruciais, como o controle do crescimento de algas que podem sufocar os corais. Se os peixes não se reproduzem ou migram para fugir do barulho, os recifes degradam. Isso afeta diretamente as comunidades que dependem da pesca artesanal e o próprio turismo que movimenta a economia litorânea.
Como conciliar turismo e conservação marinha
A pesquisa da UFPE ressalta que o turismo e a preservação ambiental não precisam ser excludentes. No entanto, o planejamento urbano e turístico precisa abraçar a dimensão acústica, um fator historicamente ignorado nas políticas públicas ambientais do país.
Os pesquisadores defendem a implementação de medidas práticas e de baixo custo. O zoneamento de áreas sensíveis, a criação de rotas obrigatórias para embarcações distantes dos recifes e a imposição de limites de velocidade para motores em períodos reprodutivos são caminhos viáveis. Proteger o som do oceano é, em última análise, garantir que as futuras gerações ainda encontrem vida sob as águas brasileiras.