Falta de parques e áreas verdes atinge mais de 60% das unidades de ensino infantil no país.
(Imagem: gerado por IA)
Um retrato alarmante da educação infantil no Brasil acaba de vir à tona. Segundo dados do Censo Escolar 2025, consolidados pelo portal QEdu, menos de duas em cada dez creches e pré-escolas públicas do país possuem todos os itens de infraestrutura considerados indispensáveis para um funcionamento digno. O índice, de apenas 17%, expõe o abismo entre o direito garantido por lei e a realidade vivenciada por milhões de crianças em fase de desenvolvimento crítico.
O que falta no básico?
A análise leva em conta 11 indicadores fundamentais: prédio escolar, energia elétrica, água da rede pública, banheiros, rede de esgoto, cozinha, alimentação, coleta de lixo, acessibilidade, internet e espaços de leitura. Embora a alimentação seja o único item presente em 100% das unidades, o restante da lista revela lacunas graves. Por exemplo, 4% das escolas de educação infantil ainda não possuem sequer rede de esgoto, e 33% não contam com abastecimento de água da rede pública, dependendo de poços ou caminhões-pipa.
O déficit cultural também é gritante. Cerca de 64% das instituições brasileiras não possuem bibliotecas ou salas de leitura. Em uma etapa da vida onde o estímulo lúdico e o contato com os livros são determinantes para a alfabetização futura, a ausência desses espaços compromete o potencial de aprendizagem desde o berçário.
Além da sobrevivência: a falta do brincar
Se os itens básicos já são escassos, a infraestrutura voltada especificamente para o bem-estar infantil é ainda mais rara. Quando o critério de avaliação inclui banheiros adequados ao tamanho das crianças, parques infantis, áreas verdes e materiais artísticos, o índice de unidades preparadas cai para 12%.
O levantamento mostra que menos da metade das creches (45%) oferece um parque infantil aos alunos. A presença de áreas verdes, fundamentais para a saúde e o contato com a natureza, é realidade em apenas 36% das unidades. Esses dados reforçam que, para a maioria das crianças brasileiras, a escola é um ambiente árido, focado na custódia e não necessariamente no desenvolvimento integral.
Impacto social e regional
A falta de vagas e de qualidade nas creches atinge de forma desproporcional as famílias mais vulneráveis. Dados complementares indicam que a carência de acesso impacta diretamente as mulheres, especialmente em comunidades e favelas, impedindo-as de ingressar no mercado de trabalho. Além disso, o marcador de atendimento municipal revela que em 876 cidades brasileiras, pelo menos 10% das crianças de 4 e 5 anos estão fora da escola por falta de estrutura ou vagas.
Ernesto Martins Faria, diretor-executivo do Iede e um dos idealizadores da atualização do QEdu, reforça que a educação infantil precisa ser tratada como prioridade absoluta no debate público. "Precisamos falar sobre o que é educação infantil de qualidade. Não basta apenas ter o prédio; é preciso oferecer condições para que a criança se desenvolva", pontua.
O que diz o Governo Federal
Em resposta aos dados, o Ministério da Educação (MEC) afirmou que tem intensificado o apoio aos municípios, que são os responsáveis diretos por essa etapa do ensino. A pasta aposta no Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade na Educação Infantil para padronizar parâmetros de atendimento em todo o território nacional.
De acordo com o MEC, por meio do Novo PAC, já foram entregues 886 unidades e há previsão para a construção de outras 1.684 creches. O foco também está na retomada de obras que ficaram paralisadas em gestões anteriores. A expectativa é que, com a conclusão desses projetos, o gargalo da infraestrutura comece a ser reduzido nos próximos anos, garantindo que o início da vida escolar não seja marcado pela precariedade.