São Paulo | 18ºC
Seg, 19 de Outubro
↗
Mercado Financeiro Principais ações negociadas na B3
B3 • Brasil
Cotações fornecidas por TradingView Valores sujeitos a atraso de mercado
Inteligência artificial

"Ainda estamos na pré-história": Por que a verdadeira revolução da inteligência artificial ainda não aconteceu

Especialista da USP alerta que o debate atual sobre IA foca em ferramentas básicas, enquanto a verdadeira revolução científica e geopolítica ainda está por vir.

30 abr 2026 - 08h30 Joice Gomes   atualizado às 08h32
"Ainda estamos na pré-história": Por que a verdadeira revolução da inteligência artificial ainda não aconteceu Professor da USP destaca que a evolução da IA é exponencial e imprevisível a médio prazo. (Imagem: gerado por IA)

Desde o lançamento do ChatGPT no final de 2022, o mundo parece ter mergulhado em uma febre coletiva pela inteligência artificial (IA). A tecnologia, que antes era restrita a laboratórios de elite e debates acadêmicos, tornou-se o centro de discussões que variam do otimismo tecnológico ao pavor existencial. No entanto, para quem estuda o tema profundamente, todo esse barulho ainda é apenas o começo de algo muito maior.

Um salto de escala e a falta de perspectiva

Na avaliação de Alexandre Chiavegatto Filho, professor de inteligência artificial na Universidade de São Paulo (USP), o grande erro do debate público atual é a falta de perspectiva histórica. Embora ferramentas como o Gemini ou o GPT-4 pareçam quase mágicas para o usuário comum, elas representam apenas o "estágio primitivo" de uma evolução exponencial.

"Vivemos um momento de crescimento exponencial. Um erro muito comum é as pessoas avaliarem o potencial da inteligência artificial a partir do que ela faz hoje. Ainda estamos na pré-história desses algoritmos", afirma o especialista. Segundo Chiavegatto, a arquitetura que permitiu esse salto atual começou a ser desenhada em 2017, mas a velocidade de aprimoramento é tão alta que é impossível prever com precisão onde estaremos daqui a cinco anos.

Do resumo de dados à descoberta científica

Atualmente, a maioria das pessoas utiliza a IA para tarefas de organização: resumir textos, traduzir idiomas, condensar planilhas ou criar imagens a partir de descrições. Para o professor da USP, o verdadeiro divisor de águas ocorrerá quando a IA deixar de ser uma ferramenta de "reempacotamento" de conhecimento para se tornar uma geradora de conhecimento inédito.

O impacto mais profundo deve ocorrer na saúde e na ciência básica. O salto esperado é que algoritmos consigam identificar padrões em dados clínicos que médicos humanos jamais perceberiam, ou que consigam prever a eficácia de novos medicamentos antes mesmo de qualquer teste em laboratório. "Minha previsão é que, ao longo deste ano ou do próximo, um algoritmo chegue ao ponto de descoberta científica de fato", projeta Chiavegatto.

A "Fronteira Irregular": Por que a IA ainda falha?

Um conceito central para entender o estágio atual da tecnologia é a chamada fronteira irregular. Trata-se da disparidade gritante entre as capacidades da IA: ela pode resolver problemas matemáticos complexos em segundos, superando qualquer ser humano, mas ainda tropeça em nuances literárias ou na criação de narrativas de ficção com profundidade psicológica.

Enquanto a lógica técnica é dominada com facilidade, a sensibilidade humana e a coesão de longo prazo em tarefas criativas permanecem como um desafio. Essa irregularidade é o que gera a sensação de estranhamento em muitos usuários: a máquina parece um gênio em um momento e uma criança confusa no momento seguinte.

Geopolítica e o risco existencial

O avanço da IA não é apenas uma questão técnica, mas uma disputa de poder global. Hoje, Estados Unidos e China lideram a corrida, concentrando chips de alta performance, data centers gigantescos e os principais talentos da área. Essa concentração de recursos preocupa entidades como a Unesco, que vê o risco de uma nova e profunda desigualdade tecnológica entre nações desenvolvidas e países periféricos.

Chiavegatto Filho também alerta para a necessidade de regulação ética rigorosa. Ele compara o futuro da superinteligência artificial ao desenvolvimento de armas nucleares. Para o professor, o uso da IA em questões estratégicas e militares exigirá, no futuro, tratados de não-proliferação semelhantes aos que regulam a tecnologia atômica.

O recado final do especialista é claro: não se deve ignorar a tecnologia. "Quando você ignora ou menospreza a IA, você se retira do debate. E aí a gente perde justamente quem poderia ajudar a pensar a área de forma ética", conclui. O desafio da humanidade agora não é apenas criar algoritmos mais rápidos, mas garantir que eles operem sob os melhores padrões morais e sociais.

Leia Também
Agente de IA da OpenAI acessou portal restrito do governo australiano, afirma governo
IA E SEGURANÇA Agente de IA da OpenAI acessou portal restrito do governo australiano, afirma governo
Vídeos falsos e inteligência artificial ampliam riscos de desinformação nas eleições, alerta CGI.br
ELEIÇÕES E TECNOLOGIA Vídeos falsos e inteligência artificial ampliam riscos de desinformação nas eleições, alerta CGI.br
Poli-USP cria laboratório de inclusão com tecnologias voltadas a pessoas autistas
INCLUSÃO E TECNOLOGIA Poli-USP cria laboratório de inclusão com tecnologias voltadas a pessoas autistas
Exército reúne mais de 1,3 mil participantes em exercício nacional de defesa cibernética
CIBERSEGURANÇA Exército reúne mais de 1,3 mil participantes em exercício nacional de defesa cibernética
Experimento em foguete usa microgravidade e raios X para revelar como metais se solidificam
CIÊNCIA E MATERIAIS Experimento em foguete usa microgravidade e raios X para revelar como metais se solidificam
Dois planetas gigantes e ultraleves desafiam modelos de formação planetária
ASTRONOMIA Dois planetas gigantes e ultraleves desafiam modelos de formação planetária
Steven Hao entra para a Forbes 400 como bilionário mais jovem dos EUA
TECNOLOGIA Steven Hao entra para a Forbes 400 como bilionário mais jovem dos EUA
Governo pede que plataformas detalhem canais de denúncia de violência contra mulheres
VIOLÊNCIA DIGITAL Governo pede que plataformas detalhem canais de denúncia de violência contra mulheres
Golpe do sósia: criminosos usam inteligência artificial para burlar biometria facial
Tecnologia Golpe do sósia: criminosos usam inteligência artificial para burlar biometria facial
Brasil testa foguete e plataforma para dominar pesquisas espaciais de ponta
Tecnologia Brasil testa foguete e plataforma para dominar pesquisas espaciais de ponta
Mais Lidas
Ultrapassagem proibida deixa dois mortos na Rio-Santos, em Bertioga; motorista é preso
TRAGÉDIA NA RIO-SANTOS Ultrapassagem proibida deixa dois mortos na Rio-Santos, em Bertioga; motorista é preso
Colisão após tentativa de ultrapassagem proibida matou casal e deixou quatro feridos na Rio-Santos, em Bertioga. Motorista de Audi foi preso após bafômetro positivo.
Cão farejador encontra 16,5 kg de cocaína escondidos em material para sabonetes no Porto de Santos
APREENSÃO NO PORTO Cão farejador encontra 16,5 kg de cocaína escondidos em material para sabonetes no Porto de Santos
Receita Federal apreendeu 16,5 kg de cocaína escondidos em embalagens de base para sabonetes no Porto de Santos. Carga seguiria para a Bélgica.
Guarujá terá vacinação antirrábica e avaliação veterinária gratuitas na terça; veja como agendar
SAÚDE ANIMAL Guarujá terá vacinação antirrábica e avaliação veterinária gratuitas na terça; veja como agendar
Guarujá oferece avaliação veterinária, vacina antirrábica e exames gratuitos para pets em 20 de outubro. Agendamento pelo (13) 3308-6528.
Mulher é algemada por seguranças da Linha 4-Amarela após confusão envolvendo denúncia de racismo
ABORDAGEM NO METRÔ Mulher é algemada por seguranças da Linha 4-Amarela após confusão envolvendo denúncia de racismo
Vídeo mostra mulher algemada na Linha 4-Amarela após confusão envolvendo denúncia de racismo; testemunhas e concessionária apresentam versões.