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"Ainda estamos na pré-história": Por que a verdadeira revolução da inteligência artificial ainda não aconteceu

Especialista da USP alerta que o debate atual sobre IA foca em ferramentas básicas, enquanto a verdadeira revolução científica e geopolítica ainda está por vir.

30 abr 2026 - 08h30 Joice Gomes   atualizado às 08h32
"Ainda estamos na pré-história": Por que a verdadeira revolução da inteligência artificial ainda não aconteceu Professor da USP destaca que a evolução da IA é exponencial e imprevisível a médio prazo. (Imagem: gerado por IA)

Desde o lançamento do ChatGPT no final de 2022, o mundo parece ter mergulhado em uma febre coletiva pela inteligência artificial (IA). A tecnologia, que antes era restrita a laboratórios de elite e debates acadêmicos, tornou-se o centro de discussões que variam do otimismo tecnológico ao pavor existencial. No entanto, para quem estuda o tema profundamente, todo esse barulho ainda é apenas o começo de algo muito maior.

Um salto de escala e a falta de perspectiva

Na avaliação de Alexandre Chiavegatto Filho, professor de inteligência artificial na Universidade de São Paulo (USP), o grande erro do debate público atual é a falta de perspectiva histórica. Embora ferramentas como o Gemini ou o GPT-4 pareçam quase mágicas para o usuário comum, elas representam apenas o "estágio primitivo" de uma evolução exponencial.

"Vivemos um momento de crescimento exponencial. Um erro muito comum é as pessoas avaliarem o potencial da inteligência artificial a partir do que ela faz hoje. Ainda estamos na pré-história desses algoritmos", afirma o especialista. Segundo Chiavegatto, a arquitetura que permitiu esse salto atual começou a ser desenhada em 2017, mas a velocidade de aprimoramento é tão alta que é impossível prever com precisão onde estaremos daqui a cinco anos.

Do resumo de dados à descoberta científica

Atualmente, a maioria das pessoas utiliza a IA para tarefas de organização: resumir textos, traduzir idiomas, condensar planilhas ou criar imagens a partir de descrições. Para o professor da USP, o verdadeiro divisor de águas ocorrerá quando a IA deixar de ser uma ferramenta de "reempacotamento" de conhecimento para se tornar uma geradora de conhecimento inédito.

O impacto mais profundo deve ocorrer na saúde e na ciência básica. O salto esperado é que algoritmos consigam identificar padrões em dados clínicos que médicos humanos jamais perceberiam, ou que consigam prever a eficácia de novos medicamentos antes mesmo de qualquer teste em laboratório. "Minha previsão é que, ao longo deste ano ou do próximo, um algoritmo chegue ao ponto de descoberta científica de fato", projeta Chiavegatto.

A "Fronteira Irregular": Por que a IA ainda falha?

Um conceito central para entender o estágio atual da tecnologia é a chamada fronteira irregular. Trata-se da disparidade gritante entre as capacidades da IA: ela pode resolver problemas matemáticos complexos em segundos, superando qualquer ser humano, mas ainda tropeça em nuances literárias ou na criação de narrativas de ficção com profundidade psicológica.

Enquanto a lógica técnica é dominada com facilidade, a sensibilidade humana e a coesão de longo prazo em tarefas criativas permanecem como um desafio. Essa irregularidade é o que gera a sensação de estranhamento em muitos usuários: a máquina parece um gênio em um momento e uma criança confusa no momento seguinte.

Geopolítica e o risco existencial

O avanço da IA não é apenas uma questão técnica, mas uma disputa de poder global. Hoje, Estados Unidos e China lideram a corrida, concentrando chips de alta performance, data centers gigantescos e os principais talentos da área. Essa concentração de recursos preocupa entidades como a Unesco, que vê o risco de uma nova e profunda desigualdade tecnológica entre nações desenvolvidas e países periféricos.

Chiavegatto Filho também alerta para a necessidade de regulação ética rigorosa. Ele compara o futuro da superinteligência artificial ao desenvolvimento de armas nucleares. Para o professor, o uso da IA em questões estratégicas e militares exigirá, no futuro, tratados de não-proliferação semelhantes aos que regulam a tecnologia atômica.

O recado final do especialista é claro: não se deve ignorar a tecnologia. "Quando você ignora ou menospreza a IA, você se retira do debate. E aí a gente perde justamente quem poderia ajudar a pensar a área de forma ética", conclui. O desafio da humanidade agora não é apenas criar algoritmos mais rápidos, mas garantir que eles operem sob os melhores padrões morais e sociais.

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