Uso estratégico da inteligência artificial pode reduzir custos operacionais em pequenas empresas.
(Imagem: gerado por IA)
A revolução silenciosa da inteligência artificial (IA) nas pequenas e microempresas brasileiras vive um momento de paradoxo. De um lado, a popularização de ferramentas como ChatGPT e Claude fez com que a tecnologia entrasse rapidamente no cotidiano de quem toca o próprio negócio. Do outro, há um abismo entre usar a IA para criar um post em rede social e integrá-la, de fato, à gestão estratégica da empresa.
Dados da Unidade de Gestão e Estratégia do Sebrae Nacional revelam esse cenário de forma nítida. Enquanto mais de 80% dos micro e pequenos empreendedores já utilizam alguma ferramenta de IA no dia a dia, esse número despenca para 46% quando o assunto é o uso da tecnologia nos processos estruturais de negócios.
A barreira da sobrevivência imediata
O foco quase exclusivo no marketing e na comunicação não é por acaso. Segundo o economista Marco Aurélio Bedê, analista do Sebrae Nacional, a demanda imediata nas empresas de menor porte são as vendas. "Isso acontece por uma questão de sobrevivência", explica o especialista. Para quem precisa fechar o mês no azul, a IA aparece primeiro como um redator publicitário de baixo custo ou um designer instantâneo.
No entanto, Bedê observa que o perfil de uso muda drasticamente conforme a empresa ganha musculatura. Entre os Microempreendedores Individuais (MEIs), o uso em marketing chega a 74%. Já nas médias e grandes empresas, o cenário se inverte: a prioridade absoluta é a análise de dados e a eficiência operacional.
Do 'CPF' para o 'CNPJ': a mudança de mentalidade
Para o mercado de tecnologia, o grande desafio atual é fazer com que o empreendedor pare de usar a IA de forma isolada, como um recurso pessoal do funcionário, e passe a incorporá-la à inteligência da empresa. Gustavo Bastos, vice-presidente de Plataformas da TOTVS, utiliza uma metáfora clara: é preciso tirar a IA do "CPF" e levá-la para o "CNPJ".
"Hoje, o que vemos são funcionários usando IA para cumprir suas funções individuais, sem uma visão estratégica sobre os processos por parte das empresas", afirma Bastos. Ele alerta que a inércia pode custar caro: "É preciso testar, porque o seu concorrente já está fazendo e você vai acabar perdendo terreno".
O perigo da pressa sem governança
Embora a urgência seja real, a implementação da IA exige cautela, especialmente em setores críticos. Automatizar processos fiscais ou jurídicos pode gerar ganhos imensos de produtividade, mas um erro técnico pode resultar em prejuízos financeiros graves ou multas pesadas.
"Você pode criar uma ferramenta com 90% de precisão para uma automação fiscal e obter um excelente retorno, mas um único erro pode anular todo o ganho se você levar uma multa", exemplifica o executivo da TOTVS. A recomendação é clara: saneie suas bases de dados antes de começar. A IA é tão boa quanto os dados que a alimentam.
O futuro: Agentes de IA e o potencial de escala
O próximo passo dessa evolução atende pelo nome de "Agentes de IA". Diferente de um chatbot comum que apenas responde perguntas, esses agentes são capazes de executar tarefas complexas de forma autônoma. Para David Dias, líder de IA para a América Latina na EY, a tecnologia está democratizando o crescimento de alto impacto.
Dias cita o exemplo de um empreiteiro que, ao utilizar IA para estruturar contratos e propostas comerciais, viu suas vendas crescerem até 25% em poucos meses. A visão de futuro é ainda mais audaciosa: a possibilidade de que uma única pessoa, munida das ferramentas certas de IA, consiga criar um "unicórnio", uma empresa avaliada em 1 bilhão de dólares. Para o pequeno empreendedor brasileiro, o recado é direto: a IA não é mais uma tendência para o futuro, mas a ferramenta de sobrevivência e escala do presente.