O mexilhão-verde (Perna viridis) é uma espécie invasora que compete com moluscos nativos e danifica estruturas marítimas.
(Imagem: gerado por IA)
Uma ameaça silenciosa, mas visualmente vibrante, está transformando o cenário submarino da costa brasileira e acendendo um sinal de alerta entre cientistas e comunidades pesqueiras. O mexilhão-verde asiático (Perna viridis), uma espécie invasora originária do Indo-Pacífico, está se expandindo de forma agressiva pelo litoral, com uma presença cada vez mais notável nas águas do estado de São Paulo.
Diferente das espécies nativas, esse molusco possui um crescimento acelerado e uma capacidade de adaptação que o torna um competidor desleal no ecossistema local. Segundo levantamentos divulgados inicialmente pelo Jornal da USP, a presença do mexilhão-verde já foi confirmada em diversos pontos estratégicos, incluindo a Baixada Santista, onde pesquisadores monitoram de perto os impactos dessa colonização forçada.
O que torna essa espécie uma praga marítima?
O grande problema do Perna viridis não é apenas a sua presença, mas a sua eficiência biológica. No Brasil, ele não encontra predadores naturais na mesma proporção que em seu habitat de origem, o que permite que suas colônias se proliferem de maneira descontrolada. Ao se fixarem em costões rochosos, eles expulsam espécies nativas, como o mexilhão-marrom, que é a base da culinária e da economia de muitas comunidades litorâneas.
Além da disputa por espaço e alimento, o mexilhão-verde é conhecido pela bioincrustação. Ele se fixa com força em qualquer superfície sólida: cascos de embarcações, pilares de pontes, boias de sinalização e, de forma mais crítica, em tubulações de sistemas de resfriamento de usinas e indústrias que utilizam água do mar. O acúmulo desses organismos pode entupir sistemas inteiros, gerando prejuízos milionários em manutenção e interrupção de serviços.
Impacto direto na pesca e na alimentação
Para o pescador artesanal e para o setor de maricultura, a invasão é um golpe direto na subsistência. O mexilhão-verde compete diretamente pelos mesmos nutrientes que as espécies comerciais, reduzindo a qualidade e a quantidade da produção local. Existe ainda uma preocupação sanitária: por serem organismos filtradores, esses mexilhões podem acumular toxinas e metais pesados se estiverem em águas poluídas, representando um risco potencial para o consumo humano se não houver um monitoramento rigoroso.
Especialistas da USP apontam que a introdução da espécie no Brasil provavelmente ocorreu por meio da água de lastro de grandes navios cargueiros. Uma vez estabelecido, o mexilhão aproveita as correntes marítimas para espalhar suas larvas por centenas de quilômetros, tornando o controle da infestação um desafio logístico e ambiental sem precedentes.
O futuro das praias paulistas
O avanço da praga coloca em xeque o equilíbrio da biodiversidade marinha. Sem um plano de contenção eficaz ou a descoberta de formas de aproveitamento econômico que incentivem a retirada dessa espécie do ambiente, o cenário tende a se agravar. O monitoramento contínuo é a principal ferramenta atual para entender até onde esse invasor pode chegar.
A situação reforça a necessidade de políticas mais rígidas de controle sanitário em portos e uma conscientização maior sobre o descarte de resíduos e a limpeza de cascos de barcos de lazer, que também servem como vetores de transporte para a praga. O desafio agora é evitar que a beleza exótica do tom esverdeado desses moluscos mascare a destruição silenciosa que eles promovem sob as ondas.