Governador Jorginho Mello assina decreto de alerta climático para prevenção contra o El Niño. Foto: Defesa Civil SC.
(Imagem: gerado por IA)
O Governo de Santa Catarina decidiu se antecipar aos humores do clima para evitar que a história se repita. O governador Jorginho Mello assinou, nesta segunda-feira (18), um decreto que estabelece estado de alerta climático em todo o território catarinense por um período de 180 dias. A medida não é um sinal de pânico, mas uma estratégia de guerra preventiva contra os efeitos do fenômeno El Niño, que ameaça trazer chuvas severas e o fantasma das enchentes para a região Sul do Brasil nos próximos meses.
Diferente de um decreto de emergência ou de estado de calamidade pública, que costumam ser reativos ao desastre, o alerta climático funciona como um mecanismo administrativo de antecipação. Com ele, o governo ganha agilidade para mobilizar órgãos estaduais, servidores e recursos financeiros de forma imediata. O objetivo central é fortalecer o monitoramento meteorológico e acelerar a modernização de barragens, garantindo que a infraestrutura do estado esteja pronta para conter o volume hídrico esperado.
Investimento e mobilização antecipada
Segundo a agência de notícias do governo estadual, o decreto autoriza o uso de recursos do Fundo Estadual de Proteção e Defesa Civil (Fundec) para custear medidas operacionais. Na prática, isso significa que o estado pode investir em capacitação de equipes e tecnologia de resposta rápida antes mesmo que os eventos críticos ocorram. A intenção é reduzir o tempo de resposta e, consequentemente, minimizar danos materiais e salvar vidas.
Para os municípios, o decreto traz uma régua clara de atuação. Foram estabelecidos critérios objetivos para que as prefeituras possam declarar situação de emergência local. Entre os gatilhos estão índices de chuva superiores a 80 milímetros em apenas 24 horas, desalojamento de famílias, interrupção de serviços essenciais como luz e água, além de deslizamentos de terra ou alertas de nível laranja e vermelho emitidos pela Defesa Civil estadual.
O fator El Niño: o que diz a ciência
A preocupação do governo catarinense está fundamentada em dados científicos robustos. Estudos do National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), dos Estados Unidos, indicam uma probabilidade superior a 80% de que o El Niño se consolide plenamente. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico, altera drasticamente o regime de chuvas na América do Sul, concentrando precipitações volumosas no Sul do Brasil.
Embora a situação atual seja de neutralidade climática, os modelos apontam para um aquecimento progressivo das águas a partir de julho. De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a tendência é que o impacto seja sentido com mais força durante a primavera e o verão. A previsão é que o El Niño atinja seu pico de intensidade entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027, o que justifica a extensão do alerta por seis meses.
Impactos na economia e agricultura
Além do risco iminente às áreas urbanas e encostas, o setor produtivo está sob vigilância. Institutos ligados ao Ministério da Agricultura e da Ciência e Tecnologia já emitiram alertas sobre a instabilidade que o excesso de chuva pode causar nas safras. Culturas essenciais para a mesa do brasileiro, como arroz, feijão e milho, são as mais vulneráveis à instabilidade climática no Sul.
Santa Catarina possui um histórico doloroso com o El Niño. O estado enfrentou enchentes históricas em 1983 e, mais recentemente, em 2023, que deixaram rastro de destruição em diversas regiões. O novo decreto busca romper o ciclo de apenas remediar os danos, focando na resiliência da infraestrutura estadual. O alerta vigora até novembro, mas o governo já sinalizou que a prorrogação é uma possibilidade real caso as previsões de maior intensidade no início de 2027 se confirmem.