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Dom, 14 de Junho
Carne Cultivada

Carne de laboratório: como a Embrapa está criando bifes reais sem abater animais

A Embrapa avança na criação de carne de laboratório sem abate animal. Entenda como a biotecnologia promete bifes sustentáveis e quando chegam ao mercado.

14 jun 2026 - 13h04 Joice Gomes   atualizado às 13h05
Carne de laboratório: como a Embrapa está criando bifes reais sem abater animais Pesquisadores da Embrapa desenvolvem tecnologia de carne cultivada em laboratório para reduzir impacto ambiental e eliminar o abate animal. (Imagem: gerado por IA)

Imagine saborear um suculento filé de frango ou um anel de lula sem que nenhum animal tenha sido sacrificado para isso. O que antes parecia roteiro de ficção científica está se tornando uma realidade palpável nos laboratórios da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A estatal brasileira acaba de dar passos largos no desenvolvimento da chamada "carne cultivada", uma inovação que promete não apenas revolucionar a indústria de alimentos, mas também oferecer uma resposta contundente às crises ambientais provocadas pela pecuária tradicional.

Diferente dos produtos conhecidos como "plant-based" (feitos à base de plantas), que buscam imitar o sabor da proteína animal usando vegetais, a carne de laboratório é carne de verdade. O processo começa com uma técnica de biópsia simples, onde um pequeno punhado de células é retirado de um animal vivo. Essas células são então levadas para um ambiente controlado, um biorreator onde são "alimentadas" com nutrientes como glicose, aminoácidos e sais minerais, permitindo que se multipliquem até formarem o tecido muscular e a gordura que compõem o alimento final.

Sustentabilidade e o fim do impacto ambiental

A iniciativa é liderada pela unidade Embrapa Suínos e Aves, sediada em Concórdia (SC), em parceria com o Laboratório de Nanobiotecnologia (LNANO) da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), em Brasília. O grande motor dessa pesquisa é a urgência climática. A pecuária convencional é um dos setores que mais gera pressão sobre o meio ambiente, sendo frequentemente associada ao desmatamento para a criação de pastagens e à alta emissão de gás metano, um dos principais aceleradores do efeito estufa.

Com a carne cultivada, a necessidade de grandes extensões de terra e o manejo intensivo de rebanhos desaparecem. "Nós conseguimos isolar as diferentes células que compõem o tecido muscular vivo. A partir disso, focamos na multiplicação em grande quantidade daquele tipo celular específico", explica a veterinária Naiara Milagres Augusto da Silva, analista do Cenargen. O resultado é um produto com menor pegada de carbono e sem o dilema ético do abate animal.

Tecnologia de tecidos: o segredo da textura

Um dos maiores desafios da ciência era garantir que a carne de laboratório tivesse a mesma textura e firmeza de um bife convencional. Para resolver isso, os pesquisadores utilizam estruturas biomiméticas chamadas de scaffolds (suportes). Essas malhas, muitas vezes produzidas a partir de proteínas vegetais, funcionam como um "andaime" onde as células se ancoram e se organizam de forma tridimensional.

A olho nu, essas estruturas parecem finas folhas de papel, mas, sob o microscópio, revelam uma rede complexa que imita a matriz extracelular do organismo vivo. Além dos filés de frango, a Embrapa já produziu protótipos surpreendentes de salmão, caviar e anéis de lula veganos. Outro avanço significativo é o desenvolvimento de uma película comestível para embutidos, como linguiças, eliminando o uso de tripas animais no processo produtivo.

Regulação e o caminho até a mesa do brasileiro

O Brasil já se prepara juridicamente para essa nova era. Em 2023, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a Resolução RDC nº 839, que estabelece o marco regulatório para alimentos produzidos por técnicas de cultivo celular. Isso coloca o país no mesmo patamar de pioneiros como Singapura, Estados Unidos e Israel, que já possuem aprovações comerciais para esses produtos.

Apesar do avanço científico documentado em revistas prestigiadas como a Foods, a chegada às prateleiras dos supermercados ainda deve levar alguns anos. A previsão é que os protótipos finais sejam validados como ativos tecnológicos da Embrapa até meados de 2025, com a possibilidade de comercialização em larga escala prevista para 2027. O próximo desafio será escalar a produção para que o preço final seja competitivo, permitindo que a carne do futuro chegue, de fato, a todos os brasileiros.

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