A exposição 'Viva Viva Escola Viva' reúne obras de diversos povos indígenas e propõe reflexão sobre educação.
(Imagem: gerado por IA)
A educação brasileira costuma ser pautada por quatro paredes, livros didáticos e uma lógica de alfabetização que, muitas vezes, ignora a fauna e a flora local em favor de exemplos estrangeiros. No entanto, uma exposição em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, convida o público a romper com essa visão 'quadrada' e mergulhar em um conceito onde o território, a memória e a espiritualidade são os verdadeiros professores. Trata-se da mostra Viva Viva Escola Viva, que celebra o movimento das Escolas Vivas e reúne obras coletivas de diversos povos originários.
Um novo olhar sobre o aprendizado
Diferente de uma exposição de arte convencional, a mostra é um registro vivo de experiências pedagógicas dos povos Guarani Mbya, Baniwa, Huni Kuin, Maxakali e Tukano-Desana-Tuyuka. Aqui, o ensinar e o aprender não se limitam a letras e números. Como explica a filósofa e educadora Cristine Takuá, curadora da mostra, a transmissão de conhecimento entre esses povos acontece através das artes, dos rituais e do respeito aos ensinamentos de avós e avôs.
A exposição revela que o território indígena em si é uma escola. 'Historicamente, a colonização do Brasil foi tão violenta que atravessou nossos corpos e memórias. O movimento das Escolas Vivas vem dizer que nossa educação é o bem-viver e o respeito a todas as formas de vida', afirma Takuá. Essa perspectiva confronta a chamada 'arrogância colonial', que por séculos deslegitimou saberes ancestrais em favor de modelos europeus.
Obras que respiram ancestralidade
O visitante encontrará instalações que são extensões diretas da vida nas aldeias. O povo Baniwa apresenta 'O umbigo do mundo', uma instalação composta por trançados de fibra de tucum feitos por mãos femininas. Já os Huni Kuĩ trazem o 'pano professor', cujos grafismos tradicionais (kenes) não são meros adornos, mas guias que orientam a visão de mundo e o aprendizado da comunidade.
A imersão continua com os Maxakali e seus mastros rituais, que conectam o mundo físico ao espiritual, e a instalação 'Pytü, o Escuro', dos Guarani Mbya, que simboliza o silêncio primordial de onde surge a vida. Um dos pontos altos é a farmácia amazônica, composta por plantas medicinais, elixires e bálsamos dos povos Tukano, Desana e Tuyuka, lembrando que a saúde e a educação caminham juntas na floresta.
A voz dos mais velhos e o futuro da educação
A mostra reserva um núcleo especial aos anciãos, figuras centrais na manutenção da cultura. Obras de Ailton Krenak, Ehuana Yanomami, Tõrãmu Kẽhíri e Moisés Piyãko reforçam que os mais velhos são os pilares que sustentam a memória através dos tempos. Eles são a prova de que a educação verdadeira é aquela que ensina a pedir licença para entrar na natureza e a respeitar o equilíbrio de todas as coisas.
Cristine Takuá faz uma provocação necessária sobre o currículo escolar brasileiro: 'Muitas crianças na Mata Atlântica aprendem sobre girafas e elefantes, mas não conhecem a cutia, a paca ou a lontra'. A exposição é, portanto, um convite para que a sociedade brasileira repense sua conexão com a terra. Afinal, a natureza não é algo externo a ser explorado, mas uma teia de relações da qual somos apenas uma pequena parte. O despertar para essa consciência é o primeiro passo para uma educação que, de fato, sustente a vida.
Serviço
A exposição Viva Viva Escola Viva permanece no Instituto Tomie Ohtake até o dia 9 de agosto. A entrada é gratuita, oferecendo uma oportunidade rara de contato direto com a profundidade filosófica e artística dos primeiros povos do Brasil.