Pesquisa do Unicef mostra que palmadas ainda são vistas como disciplina por famílias brasileiras
(Imagem: gerado por IA)
Dar palmadas, tapas ou chineladas ainda é considerado uma forma de disciplina por parte das famílias ouvidas em um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado nesta quinta-feira (24). O levantamento mostra que alguns responsáveis distinguem a agressão usada para corrigir comportamentos da violência que reconhecem como inaceitável. Para a entidade, essa percepção dificulta a prevenção dos castigos físicos na infância.
A pesquisa ouviu 214 pessoas em comunidades com situações de vulnerabilidade e violência: 123 no Rio de Janeiro, nas regiões da Grande Pavuna e Grande Jacarepaguá; 37 no Recife, no Ibura; e 54 em Manaus, na Colônia Antônio Aleixo e na comunidade Parque das Tribos. Participaram pais, cuidadores e lideranças comunitárias. Por se concentrar nesses territórios, o estudo ajuda a compreender percepções e práticas locais, mas seus resultados não devem ser apresentados como percentuais representativos de todas as famílias brasileiras.
Castigo físico ainda é visto como correção
Segundo a especialista em proteção à criança do Unicef Luiza Teixeira, muitos participantes não classificam palmadas e chineladas como violência, embora rejeitem agressões que identificam como espancamento. O levantamento também encontrou responsáveis que agem impulsivamente diante de birras e depois se arrependem, mas não conhecem alternativas para lidar com conflitos sem bater.
A naturalização do castigo físico pode atravessar gerações: práticas vividas na infância acabam sendo reproduzidas por adultos que acreditam estar apenas estabelecendo limites. O Unicef defende ampliar campanhas e ações preventivas que ofereçam orientação prática, respeitem a realidade dos territórios e fortaleçam os serviços públicos que acompanham as famílias.
O que diz a legislação brasileira
A Lei nº 13.010/2014, conhecida como Lei Menino Bernardo, alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente para assegurar o direito de crianças e adolescentes à educação e ao cuidado sem castigo físico ou tratamento cruel ou degradante. A regra vale para pais, familiares, responsáveis e qualquer pessoa encarregada de cuidar ou educar.
Educar sem violência não significa deixar de impor limites. Significa orientar comportamentos sem recorrer a agressões, humilhações ou ameaças. O estudo indica que o desconhecimento da legislação e a aceitação social das palmadas ainda dificultam a mudança de práticas.
Como lidar com birras sem bater
Especialistas ouvidas pela Agência Brasil explicam que crianças pequenas ainda estão desenvolvendo habilidades de autocontrole, planejamento e regulação emocional. Em momentos de frustração, precisam da ajuda de um adulto para compreender o que sentem e aprender outras formas de agir.
Uma orientação prática é o responsável primeiro controlar a própria reação, depois acolher o sentimento da criança, estabelecer um limite claro para o comportamento e, quando ela estiver mais calma, explicar o que pode fazer de outra maneira. Acolher a emoção não exige permitir tudo: é possível reconhecer a raiva ou a tristeza e, ao mesmo tempo, impedir uma atitude perigosa ou inadequada.
Prevenção precisa chegar às famílias
O Unicef também identificou dificuldades de capacitação de profissionais da rede de proteção e de acesso das famílias aos serviços. A entidade defende que saúde, educação e assistência social atuem antes que ocorram agressões, oferecendo orientação e apoio a mães, pais e cuidadores.
Quando há suspeita de violência ou risco à criança, a rede de proteção local e o Conselho Tutelar podem orientar os encaminhamentos necessários. Casos podem ser comunicados ao Disque Direitos Humanos, pelo número 100. A principal conclusão do estudo é que estabelecer limites e proteger crianças são objetivos compatíveis: o castigo físico não precisa fazer parte da educação.