Relatos de insultos, intimidação e ameaças entre estudantes após o segundo turno das eleições de 2026 revelam como a polarização política pode atingir crianças e adolescentes dentro das escolas. As ocorrências incluem situações em que alunos passaram a ser hostilizados por posições eleitorais atribuídas às suas famílias, em vez de por suas próprias atitudes.
Entre os episódios divulgados estão denúncias envolvendo estudantes de 12 anos em Foz do Iguaçu, no Paraná, e na capital paulista, além de queixas de ofensas graves em uma escola particular de São Paulo. Um caso no Distrito Federal também motivou apuração policial e procedimento administrativo. A existência desses relatos não significa que todos tenham sido concluídos ou que exista um levantamento nacional comprovando aumento generalizado do problema.
Debate político e intimidação não são a mesma coisa
A convivência democrática pressupõe a possibilidade de discordar, inclusive sobre candidatos e governos. O problema surge quando diferenças são usadas para humilhar, isolar, ameaçar ou perseguir colegas. A Lei nº 13.185/2015 trata da intimidação sistemática, caracterizada por atos intencionais e repetitivos de violência física ou psicológica em contexto de desequilíbrio de poder.
Nem toda discussão configura bullying na definição legal. Isso, porém, não torna aceitáveis ameaças ou constrangimentos isolados: situações graves também exigem providências, mesmo quando não há repetição comprovada.
O que cabe às escolas diante de uma denúncia
Instituições de ensino precisam acolher o estudante, registrar os fatos, ouvir os envolvidos de forma adequada à idade e agir para impedir novas agressões. O cuidado inclui evitar exposição pública da criança e não transformar uma denúncia em disputa partidária entre adultos.
Quando há ameaça concreta, violência sexual ou risco à integridade, apenas uma conversa coletiva sobre respeito pode ser insuficiente. A escola deve avaliar o acionamento da rede de proteção e das autoridades competentes. O Estatuto da Criança e do Adolescente protege a dignidade e a integridade de crianças e adolescentes.
O papel das famílias
Responsáveis podem ajudar a distinguir crítica política de hostilidade pessoal. Atribuir a uma criança o voto de seus pais ou tratá-la como representante de um grupo político contribui para um ambiente de perseguição. Em casa, é importante incentivar o respeito às diferenças sem exigir silêncio sobre temas públicos.
Se o estudante relatar agressões, os responsáveis devem anotar datas, circunstâncias e nomes de testemunhas, procurar a direção da escola e preservar mensagens digitais relevantes sem redistribuir conteúdo que exponha menores. Alterações de comportamento e medo de frequentar as aulas também merecem atenção.
O que ainda não se sabe
Os episódios conhecidos não permitem calcular quantas escolas brasileiras enfrentam o problema nem atribuir toda a violência a uma única preferência eleitoral. As investigações e os procedimentos escolares precisam ser acompanhados individualmente, respeitando a proteção das vítimas e o direito de defesa dos envolvidos.
O desafio é assegurar que divergências entre adultos não se convertam em violência contra estudantes. A resposta exige acolhimento, apuração, prevenção e medidas proporcionais à gravidade de cada caso.