O Brasil tem 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que estão fora da escola sem ter concluído a educação básica. O contingente representa 37,3% da população dessa faixa etária e revela uma demanda por escolarização muito superior à capacidade atual de atendimento da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Os dados integram um levantamento da Rede EJA e Inclusão Produtiva, com informações do IBGE e do Censo Escolar.

O diagnóstico aponta que 44,7 milhões não concluíram o ensino fundamental e 19,3 milhões interromperam os estudos antes de terminar o ensino médio. Os valores são arredondados separadamente, razão pela qual sua soma pode diferir ligeiramente do total de 63,9 milhões.

Quem são os brasileiros que ficaram sem concluir a escola?

O levantamento considera pessoas de 15 anos ou mais fora da escola que não completaram as etapas da educação básica. Não se trata de afirmar que todas são analfabetas: parte desse grupo frequentou a escola por anos, mas deixou os estudos antes da conclusão do fundamental ou do médio.

Pessoas pretas e pardas representam 63,9% desse universo, proporção superior à participação desses grupos no conjunto da população brasileira. A desigualdade racial aparece também nas matrículas da EJA, nas quais pretos e pardos correspondem a 76,8% dos estudantes.

Por que a EJA atende tão poucas pessoas?

Segundo a pesquisa, a Educação de Jovens e Adultos alcança apenas 1,5% do público potencial. A distância entre necessidade e matrícula evidencia obstáculos que vão além da oferta de vagas: jornada de trabalho, transporte, cuidado com filhos e familiares e dificuldades para conciliar estudo e renda.

Para ampliar o acesso, o relatório recomenda currículos flexíveis, horários compatíveis com a rotina dos trabalhadores e políticas de permanência. A matrícula, isoladamente, não resolve o problema se o estudante não consegue frequentar as aulas até a conclusão.

Qual é o impacto sobre renda e pobreza?

A renda domiciliar mensal por pessoa entre aqueles que não concluíram a educação básica é estimada em R$ 1.427, ante R$ 2.777 entre os que completaram essa etapa. A taxa de pobreza do primeiro grupo é 1,8 vez maior. Esses números mostram associação entre escolaridade e condições econômicas, embora a renda também dependa de fatores como região, idade, ocupação e acesso ao emprego.

Os pesquisadores calculam que a conclusão dos estudos por 32,5 milhões de pessoas poderia elevar os rendimentos do trabalho em cerca de R$ 66 bilhões anuais. Essa é uma estimativa de potencial econômico, não uma receita já realizada nem um benefício garantido a cada estudante.

O número está diminuindo?

O contingente caiu 16% entre 2012 e 2025, mas o estudo faz um alerta: apenas uma pequena parte dessa redução está ligada ao retorno à escola pela EJA. Mais da metade da diminuição é explicada pela mortalidade de pessoas mais velhas que não tiveram acesso à escolarização completa.

Assim, a queda estatística não deve ser confundida com a solução do problema educacional. O país pode registrar menos pessoas sem diploma ao mesmo tempo em que continua deixando adultos sem oportunidades de conclusão.

O que precisa mudar?

O diagnóstico defende a articulação entre educação, assistência social e inclusão produtiva. Turmas em horários adequados, busca ativa de estudantes, apoio para transporte e acolhimento das responsabilidades familiares podem melhorar a permanência. A oferta também precisa considerar diferenças entre jovens que interromperam recentemente o ensino médio e adultos que estão há décadas afastados das salas de aula.

Para quem deseja retomar os estudos, o primeiro passo é procurar a secretaria municipal ou estadual de Educação para consultar as turmas de EJA disponíveis na região. A existência de vagas, turnos e critérios de matrícula varia conforme a rede de ensino.

O desafio por trás dos 63,9 milhões

O levantamento mostra que o atraso educacional não é apenas uma questão individual: envolve desigualdades históricas de renda, raça, trabalho e acesso a políticas públicas. Com mais de um terço dos brasileiros de 15 anos ou mais fora da escola sem concluir a educação básica, ampliar a EJA é um desafio de escala nacional. O resultado dependerá de políticas capazes de trazer estudantes de volta e, principalmente, permitir que concluam sua formação.