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Agrotóxicos estão mais tóxicos em todo o mundo e ameaçam biodiversidade e metas globais

21 fev 2026 - 11h02 Joice Gomes   atualizado em 22/02/2026 às 20h08
Agrotóxicos estão mais tóxicos em todo o mundo e ameaçam biodiversidade e metas globais Agrotóxicos estão mais nocivos em todo o mundo, mostra estudo. (Imagem: Cenipa/Divulgação)

Um estudo publicado na revista Science aponta que a toxicidade dos pesticidas utilizados na agricultura aumentou em todo o mundo entre 2013 e 2019, contrariando a meta global de reduzir pela metade os riscos associados a esses produtos até 2030, estabelecida pela Organização das Nações Unidas na COP15 sobre Biodiversidade. A pesquisa analisou 625 pesticidas em 201 países e utilizou o indicador de Toxicidade Total Aplicada (TAT), que combina o volume de uso e o grau de toxicidade de cada substância para diferentes grupos de seres vivos.

Ameaça a seis grupos de espécies

O levantamento mostra que seis de oito grandes grupos de espécies analisados estão mais vulneráveis aos níveis crescentes de toxicidade, incluindo artrópodes terrestres, organismos do solo, peixes, invertebrados aquáticos, polinizadores e plantas terrestres. Entre 2013 e 2019, a toxicidade aumentou em média 6,4% ao ano para artrópodes terrestres, 4,6% para organismos do solo, 4,4% para peixes, 2,9% para invertebrados aquáticos, 2,3% para polinizadores e 1,9% para plantas terrestres.

Os únicos grupos que registraram redução do TAT foram plantas aquáticas (queda de 1,7% ao ano) e vertebrados terrestres, categoria que inclui humanos (redução de 0,5% ao ano). Mesmo assim, pesquisadores destacam que o aumento da toxicidade global representa um desafio sério para o cumprimento da meta da ONU, pois a estratégia de reduzir riscos ainda não está refletida em mudanças práticas de uso.

Brasil entre os países de maior intensidade tóxica

O trabalho destaca que o Brasil está entre os países com maior intensidade de toxicidade por área agrícola, ao lado de China, Argentina, Estados Unidos e Ucrânia. Juntos, Brasil, China, Estados Unidos e Índia respondem por entre 53% e 68% da toxicidade total aplicada no planeta, o que concentra grande parte do impacto em um pequeno grupo de nações produtoras.

Essa relevância está ligada ao peso do agronegócio, especialmente de culturas extensivas como soja, algodão e milho, que, mesmo ocupando áreas relativamente menores em comparação a outras culturas, geram índices elevadíssimos de toxicidade devido à quantidade e ao tipo de agrotóxicos utilizados. O estudo reforça que a toxicidade não cresce apenas por mais hectares cultivados, mas por substituições de produtos e misturas mais fortes aplicadas nas lavouras.

  • Estudo analisou 625 pesticidas em 201 países entre 2013 e 2019.
  • Brasil aparece entre os países com maior intensidade de toxicidade por área agrícola.
  • Quatro grandes produtores respondem por mais da metade da toxicidade total aplicada.

Concentração de riscos em poucos produtos

Um dos achados mais surpreendentes da pesquisa é que a toxicidade está altamente concentrada: em média, apenas cerca de 20 pesticidas por país respondem por mais de 90% da toxicidade total aplicada. Isso indica que, apesar da grande diversidade de produtos registrados, a maior parte dos impactos ambientais e potenciais danos à saúde humana está ligada a um número reduzido de substâncias de uso intensivo.

Diversas classes químicas dominam os impactos: piretroides e organofosforados são responsáveis por mais de 80% do TAT de invertebrados aquáticos, peixes e artrópodes terrestres; neonicotinoides, organofosforados e lactonas respondem por mais de 80% do TAT de polinizadores; e organofosforados, juntamente com outras classes de inseticidas, lideram o TAT de vertebrados terrestres. Herbicidas de alto volume, como acetoclor, paraquat e glifosato, estão entre os compostos que mais contribuem para a toxicidade ambiental e aos riscos humanos, mesmo quando aplicados em áreas menores.

Classes químicas e alvos ecológicos

Para cada grupo de espécies, o estudo aponta quais classes de pesticidas exercem maior pressão. Inseticidas como piretroides e organofosforados são os principais responsáveis pelo aumento da toxicidade para invertebrados aquáticos, peixes e artrópodes terrestres, muito usados para combater pragas de lagartas, percevejos e outros insetos. Neonicotinoides, organofosforados e lactonas, aplicados também via revestimento de sementes, são os maiores responsáveis pelo impacto sobre polinizadores, como abelhas e borboletas.

Os organofosforados, já bastante estudados por seus efeitos sobre a saúde humana, também emergem como os mais tóxicos para vertebrados terrestres, o que inclui mamíferos e aves que habitam ou cruzam áreas agrícolas. Em plantas aquáticas, herbicidas das classes acetamida e bipiridil contribuem com mais de 80% do TAT; nas plantas terrestres, uma combinação mais ampla de herbicidas, incluindo acetamida, sulfonilureia e outros, define o nível de toxicidade.

Meta de 2030 praticamente fora de alcance

Avaliando a trajetória de 65 países, representando cerca de 79% da área agrícola mundial, o estudo conclui que, sem mudanças estruturais, apenas um país, Chile, está na rota de alcançar a meta da ONU de reduzir em 50% o risco dos pesticidas até 2030. China, Japão e Venezuela apresentam tendências de queda em alguns indicadores, mas ainda precisam de uma aceleração significativa nas alterações de uso para cumprir a meta.

Tailândia, Dinamarca, Equador e Guatemala estão se afastando da meta, com pelo menos um dos indicadores de toxicidade dobrando nos últimos 15 anos. Todos os demais países, incluindo o Brasil, precisariam retornar os níveis de risco aos patamares de mais de 15 anos atrás, o que significa reverter padrões de uso consolidados em décadas, tanto em termos de volume quanto de composição das misturas tóxicas aplicadas nas lavouras.

Alternativas para reduzir a dependência de agrotóxicos

Os autores apontam três frentes principais para frear a escalada de riscos: substituição de pesticidas altamente tóxicos por opções mais seguras, expansão da agricultura orgânica e adoção de alternativas não químicas. Tecnologias de controle biológico, como o uso de inimigos naturais de pragas, diversificação de cultivos e rotação de culturas são apresentadas como estratégias capazes de reduzir impactos ambientais sem necessariamente comprometer a produtividade das lavouras.

Além disso, o estudo ressalta a importância de manejo mais preciso, com uso de monitoramento e aplicação direcionada, para evitar pulverizações desnecessárias e reduzir a exposição de polinizadores e organismos do solo. A concentração de toxicidade em um pequeno grupo de pesticidas abre espaço para políticas públicas que restrinjam, substituam ou limitem o uso dessas substâncias, gerando impactos ambientais significativos com intervenções relativamente focadas.

O que pode acontecer a partir de agora

Se os padrões atuais de uso continuarem, a pesquisa indica que a pressão sobre polinizadores, invertebrados e organismos do solo seguirá crescendo, com reflexos diretos na biodiversidade e na própria atividade agrícola. A perda de polinizadores e a contaminação de águas e solos podem reduzir a resiliência de ecossistemas e aumentar a vulnerabilidade de sistemas produtivos, levando a maior dependência de insumos químicos em um ciclo difícil de romper.

Por outro lado, a identificação de que poucos pesticidas são responsáveis pela maior parte da toxicidade abre caminho para políticas de substituição, monitoramento e incentivo a práticas agroecológicas capazes de alinhar produtividade e redução de riscos. Agora, o desafio está em transformar os dados do estudo em decisões regulatórias, programas de certificação e incentivos que permitam ao setor agrícola reduzir o peso dos agrotóxicos, especialmente aqueles mais nocivos, sem comprometer a segurança alimentar nem a renda de produtores.

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