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Mata Atlântica avança de bioma devastado a referência mundial em restauração florestal planejada

21 fev 2026 - 09h45 Joice Gomes   atualizado em 22/02/2026 às 09h03
Mata Atlântica avança de bioma devastado a referência mundial em restauração florestal planejada A restauração da Mata Atlântica usa seleção genética, participação privada e metas ambiciosas para transformar um bioma devastado em exemplo de recuperação florestal. (Imagem: Symbiosis/Divugação)

A Mata Atlântica, historicamente um dos biomas mais devastados do país, começa a se consolidar como referência internacional em restauração florestal estruturada e orientada por ciência.

Um dos exemplos mais emblemáticos está em uma iniciativa de recuperação florestal na Bahia, que conseguiu reduzir em até 50% o tempo de crescimento de espécies nativas ao combinar seleção genética, mapeamento detalhado de matrizes e desenho de florestas mais resilientes às mudanças climáticas.

O projeto, conduzido pela empresa Symbiosis – a chamada Empresa Brasileira de Reflorestamento – faz parte de uma estratégia iniciada em 2014, focada em identificar indivíduos de alto potencial de conservação e adaptação dentro de cada espécie estudada.

Como a restauração acelera o crescimento da Mata Atlântica

A iniciativa florestal na Bahia conseguiu recuperar cerca de 1 mil hectares de Mata Atlântica por meio da seleção genética de 45 espécies nativas, entre elas jacarandá, jequitibá, ipês e angicos, escolhidas pela capacidade de adaptação a diferentes condições de solo e clima.

Segundo a supervisora de melhoramento genético, pesquisa e desenvolvimento da Symbiosis, Laura Guimarães, o trabalho começou com coleta e mapeamento de indivíduos mais promissores em cada espécie, criando uma base genética capaz de acelerar o crescimento e aumentar a resiliência das novas florestas.

O viveiro da empresa trabalha com matrizes muitas vezes centenárias, que sobreviveram a décadas de exploração da Mata Atlântica e carregam características de alta adaptação, o que permite plantar florestas produtivas com maior chance de resistir a estresses como déficit hídrico e extremos climáticos.

Além da seleção de indivíduos, o desenho das áreas restauradas é feito para garantir variabilidade genética e evitar homogeneização, reduzindo o risco de grandes perdas em caso de eventos climáticos extremos ou surtos de pragas.

A dimensão da devastação e seus impactos diretos

A vegetação nativa da Mata Atlântica já ocupou cerca de 130 milhões de hectares, mas hoje restam apenas 24% dessa cobertura, sendo só 12,4% formados por florestas maduras e bem preservadas distribuídas em fragmentos espalhados por 17 estados.

Para o gerente de Restauração Florestal da Fundação SOS Mata Atlântica, Rafael Bitante Fernandes, a forte fragmentação reduz o número de indivíduos, compromete a variabilidade genética e enfraquece a capacidade adaptativa das espécies, deixando o bioma mais vulnerável a secas prolongadas, ondas de calor e outros efeitos das mudanças climáticas.

Essa redução de diversidade biológica impacta diretamente a vida das pessoas ao diminuir a capacidade dos ecossistemas de garantir serviços essenciais, como disponibilidade de água, qualidade do ar, regulação do clima, controle de doenças e suporte à produtividade agrícola.

Na prática, o colapso desses serviços ecológicos contribui para o aumento de eventos extremos, com chuvas e secas mais intensas, enchentes, enxurradas e escassez hídrica recorrente, com efeitos sociais e econômicos em larga escala.

Quando a restauração vira negócio e política de longo prazo

O avanço da degradação da Mata Atlântica e o risco econômico associado a eventos climáticos extremos têm levado empresas privadas a enxergar a restauração florestal não mais como filantropia, mas como investimento estratégico e oportunidade de negócio.

De acordo com Rafael Fernandes, já existem modelos de restauração que permitem exploração permanente de produtos madeireiros com manejo adequado, sem corte raso das áreas, garantindo sequestro contínuo de carbono e geração de valor com produtos como óleos e essências florestais.

Projetos de proteção de mananciais que abastecem hidrelétricas, por exemplo, mostram como a recuperação da Mata Atlântica pode ampliar a segurança hídrica, prolongar a vida útil de empreendimentos de energia e reduzir riscos operacionais em períodos de secas severas ou chuvas extremas.

Com finalidades diversas, a restauração passou a incluir desde a conversão de solos degradados e sem viabilidade agrícola em florestas produtivas até planos de proteção de recursos naturais essenciais à sustentabilidade de negócios que dependem diretamente da biodiversidade.

Pacto pela Restauração e papel da Mata Atlântica no mundo

Em 2009 foi criado o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, iniciativa que reúne empresas, governos e organizações da sociedade civil com a meta de recuperar 15 milhões de hectares do bioma até 2050 por meio de projetos intencionais de recomposição florestal.

Segundo Rafael Fernandes, o conceito de restauração florestal adotado pelo pacto envolve ações planejadas, ainda que baseadas em indução da regeneração natural, sempre com projeto técnico para orientar o retorno da floresta de forma estruturada.

Estudo liderado pelo professor Paulo Molin e citado pela Fundação SOS Mata Atlântica identificou que, entre 1993 e 2022, 4,9 milhões de hectares entraram em processo de regeneração no bioma; no mesmo período, 1,1 milhão de hectares voltou a ser desmatado e 3,8 milhões de hectares restantes se mantiveram em pé.

Com esse histórico, a Mata Atlântica passou a ser apontada em congressos internacionais como uma das primeiras “flagships” globais em restauração, figurando entre os dez principais exemplos de recuperação de grandes biomas que podem servir de modelo para outras regiões do planeta.

Desafios estruturais e necessidade de políticas públicas

Apesar dos avanços em técnicas de restauração e mapeamento de áreas prioritárias, ainda há um longo caminho para garantir o funcionamento mínimo adequado da Mata Atlântica e para que a meta de 15 milhões de hectares restaurados até 2050 seja viável.

Um dos principais obstáculos é o fato de aproximadamente 90% do território do bioma estar sob domínio privado, o que demanda forte esforço de sensibilização, incentivos econômicos e segurança jurídica para proprietários rurais.

Na avaliação de especialistas, é essencial ampliar políticas de pagamento por serviços ambientais, reforçar instrumentos de comando e controle que definam áreas de preservação obrigatória e implementar programas robustos de incentivo à manutenção e recuperação de florestas nativas.

Ao mesmo tempo, a consolidação da restauração da Mata Atlântica como política de Estado pode ajudar a integrar agendas de clima, água, biodiversidade e desenvolvimento econômico, reduzindo riscos futuros e ampliando a competitividade de setores sensíveis a eventos climáticos.

Potencial de geração de empregos e desenvolvimento sustentável

O esforço de restaurar em larga escala a Mata Atlântica traz um potencial significativo de geração de renda e trabalho, com estimativas mencionadas pela Fundação SOS Mata Atlântica indicando que a cada dois campos de futebol restaurados pode ser criado um emprego direto.

Dentro do horizonte de até 15 milhões de hectares restaurados, isso representa um possível benefício social de grandes proporções, articulando conservação da biodiversidade, recuperação de serviços ecossistêmicos e inclusão produtiva em territórios rurais.

Nesse cenário, a restauração da Mata Atlântica deixa de ser vista apenas como agenda ambiental e passa a integrar uma estratégia mais ampla de desenvolvimento sustentável, segurança hídrica, mitigação de mudanças climáticas e fortalecimento de cadeias econômicas ligadas ao uso responsável dos recursos florestais.

O avanço desses projetos indica que, se houver continuidade de políticas públicas, engajamento empresarial e participação social, o bioma pode consolidar-se como um caso de transformação de um ecossistema severamente devastado em vitrine global de restauração florestal planejada.

  • A iniciativa de restauração na Bahia recuperou 1 mil hectares de Mata Atlântica com seleção genética de 45 espécies nativas e redução de até 50% no tempo de crescimento.
  • A vegetação original do bioma foi reduzida a 24% da cobertura, com apenas 12,4% de florestas maduras e bem preservadas distribuídas em fragmentos.
  • O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica estabeleceu como meta recuperar 15 milhões de hectares até 2050.
  • Cerca de 4,9 milhões de hectares entraram em regeneração entre 1993 e 2022, enquanto 1,1 milhão de hectares voltou a ser desmatado no mesmo período.
  • A restauração da Mata Atlântica pode gerar aproximadamente um emprego a cada dois campos de futebol recuperados, criando forte impacto social e econômico.
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