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Radiotelescópio sul-africano capta o "laser cósmico" mais distante já registrado, a 8 bilhões de anos-luz da Terra

15 mar 2026 - 09h50 Joice Gomes   atualizado às 09h58
Radiotelescópio sul-africano capta o "laser cósmico" mais distante já registrado, a 8 bilhões de anos-luz da Terra O radiotelescópio MeerKAT, na África do Sul, detectou o gigamaser de hidroxila mais distante já registrado. (Imagem: gerado por IA)

Um sinal de rádio de intensidade extraordinária, viajando pelo espaço há mais de 8 bilhões de anos, foi captado pelo radiotelescópio MeerKAT, localizado na África do Sul. O fenômeno, classificado como um megamaser de hidroxila e possivelmente enquadrado em uma categoria ainda mais rara chamada gigamaser, é o mais distante já detectado pela ciência e representa um dos eventos mais energéticos do universo observável.

A descoberta foi conduzida por uma equipe internacional liderada pela Universidade de Pretória e publicada em fevereiro de 2026. O objeto responsável pelo sinal recebeu a designação técnica HATLAS J142935.3–002836 e está situado a um redshift de z = 1,027, o que significa que o universo tinha menos da metade da sua idade atual quando essa energia foi emitida.

O que é um megamaser e o que torna esse diferente

Masers são emissões naturais de micro-ondas altamente concentradas, funcionando como o equivalente cósmico de um laser, mas no espectro de rádio. Quando galáxias ricas em gás colidem, as nuvens moleculares são comprimidas com violência, excitando moléculas de hidroxila (OH) a emitir ondas de rádio de forma amplificada e coerente. O resultado é um megamaser, uma "baliza cósmica" detectável a distâncias imensas.

O sinal captado pelo MeerKAT, porém, vai além. Sua luminosidade integrada é tão elevada que os pesquisadores o classificam como um gigamaser, bilhões de vezes mais brilhante do que masers comuns. O preprint publicado no arXiv registra um valor de log(L_OH / L☉) = 5,51 ± 0,67, tornando-o o megamaser de hidroxila aparentemente mais luminoso já registrado.

O radiotelescópio MeerKAT, composto por 64 antenas no Cabo Norte da África do Sul, foi o instrumento responsável pela detecção histórica. Em apenas 4,7 horas de observação, o sistema alcançou uma relação sinal-ruído superior a 150, resultado que evidencia a sensibilidade excepcional do equipamento para explorar fenômenos em grandes distâncias cosmológicas.

Como o sinal chegou até nós

A detecção de um objeto tão distante não seria possível sem um fenômeno previsto por Albert Einstein: a lente gravitacional. Uma galáxia intermediária, alinhada entre a Terra e o sistema HATLAS J142935.3–002836, curvou o espaço-tempo ao redor dela e funcionou como uma lupa natural, amplificando o sinal e tornando-o detectável pelos instrumentos do MeerKAT. Sem esse alinhamento raro, o gigamaser permaneceria invisível às nossas tecnologias atuais.

Além do sinal principal, os pesquisadores identificaram, nos mesmos dados, uma linha de absorção de hidrogênio neutro (HI) anteriormente desconhecida. Essa detecção adicional reforça o potencial do conjunto de dados para estudos futuros sobre a distribuição de gás no universo distante.

O que a colisão galáctica revela

Fusões entre galáxias são eventos recorrentes na história cósmica. Quando duas galáxias se unem, as forças gravitacionais comprimem o gás interestelar, desencadeiam surtos intensos de formação estelar e, em sistemas como o HATLAS J142935.3–002836, produzem condições ideais para a geração de megamasers. O fenômeno funciona como um marcador confiável de colisões galácticas, starburst obscurecidos e sistemas com buracos negros supermassivos duplos.

Para os cientistas, a importância da descoberta vai além do recorde de distância. A técnica combinada, radiotelescópio de alta sensibilidade aliado à amplificação por lente gravitacional, abre caminho para identificar centenas ou até milhares de outros sistemas em fusão no universo remoto. Cada novo megamaser detectado oferece uma janela para compreender como galáxias se formaram, cresceram e interagiram nos primeiros bilhões de anos do cosmos.

Pesquisas anteriores com megamasers de hidroxila estavam limitadas a redshifts abaixo de z = 0,25. A nova detecção, a z = 1,027, representa um avanço significativo nessa fronteira e demonstra que o MeerKAT e, no futuro, o Square Kilometre Array (SKA) pode transformar radicalmente o mapa dos megamasers conhecidos no universo.

O futuro próximo da astronomia de rádio

A detecção do gigamaser HATLAS J142935.3–002836 posiciona o MeerKAT como um dos instrumentos mais valiosos da astronomia atual. O observatório, operado pelo South African Radio Astronomy Observatory (SARAO), continua sendo uma referência global em radioastronomia e precursor direto do SKA, o maior radiotelescópio do mundo atualmente em construção.

  • O sinal viajou mais de 7,82 bilhões de anos-luz até chegar às antenas do MeerKAT
  • A emissão foi produzida quando o universo tinha menos da metade da idade atual, cerca de 6 bilhões de anos
  • A lente gravitacional amplificou artificialmente o sinal, viabilizando a detecção
  • Uma linha de absorção de hidrogênio neutro inédita também foi encontrada nos mesmos dados
  • O SKA, sucessor do MeerKAT, deve expandir ainda mais a fronteira de detecção desses fenômenos

A Via Láctea, por comparação, também está a caminho de uma fusão: em aproximadamente 5 bilhões de anos, ela colidirá com a galáxia de Andrômeda. Embora as estrelas raramente se choquem diretamente nesses processos, as estruturas das galáxias envolvidas são completamente reformuladas e eventos como o detectado pelo MeerKAT oferecem, hoje, um retrato de como essa transformação ocorre em escala cósmica.

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