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Exposição Fabulações transviadas de Caru Brandi estreia no Rio e abre caminhos para cultura trans na Sala do Artista Popular

08 mar 2026 - 10h03 Joice Gomes   atualizado às 18h06
Exposição Fabulações transviadas de Caru Brandi estreia no Rio e abre caminhos para cultura trans na Sala do Artista Popular Descubra a exposição Fabulações transviadas de Caru Brandi, primeira individual de artista trans na Sala do Artista Popular do Rio de Janeiro. (Imagem: Gabriela Puchineli/Divulgação)

A exposição Fabulações transviadas de Caru Brandi marca um momento histórico no calendário cultural do Rio de Janeiro. Inaugurada em 5 de março de 2026, a mostra individual do artista gaúcho transmasculino não-binário ocupa a Sala do Artista Popular, no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no bairro do Catete. Pela primeira vez, um artista trans apresenta seu trabalho nesse espaço dedicado à valorização da arte popular brasileira.

Caru Brandi, originário de Porto Alegre, celebra a conquista como uma abertura de caminhos para a comunidade trans. A exposição reúne obras do acervo pessoal do artista e peças criadas especialmente para o local, incluindo cerâmicas e pinturas que exploram de forma lúdica e crítica a transição de gênero e a dissidência identitária. Todas as peças estão à venda, com entrada gratuita para o público.

Trajetória do artista e evolução criativa

O processo artístico de Caru Brandi ganhou força em 2018, paralelo à sua transição de gênero. Inicialmente voltado para tatuagens e desenhos realistas, o artista migrou para uma estética mais ficcional e onírica, inspirada em encontros com pessoas transmasculinas e não-binárias. Durante a pandemia, enquanto cursava Direito e se formava em 2021, a pintura e o desenho emergiram como formas de conexão com a comunidade trans.

Em 2024, Brandi definiu sua vocação nas artes visuais, ingressando na faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, atua como arte-educador na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, e conquistou recentemente um ateliê após o projeto colaborativo Além-mundos: memórias do (in)imaginário, realizado na Casa Baka com outros artistas trans. Essa bagagem enriquece a exposição Fabulações transviadas de Caru Brandi, que reflete vivências coletivas e invisibilizadas.

  • Obras iniciais em tatuagem evoluíram para cerâmica e pintura figurativa.
  • Transição pessoal e artística coincidiu em 2018, com seres híbridos como tema central.
  • Formação em Artes Visuais e atuação profissional consolidam trajetória desde 2024.

Características das obras e proposta expositiva

As peças da exposição Fabulações transviadas apresentam figuras híbridas e oníricas, com poses curiosas realçadas por cores vibrantes. Cerâmicas e pinturas retratam a transviadice de modo lúdico, questionando dicotomias de gênero, natureza e humanidade. O antropólogo Patrick Monteiro do Nascimento Silva, autor do catálogo, destaca como as obras desafiam limites estabelecidos, abraçando a complexidade da arte trans.

Localizada no Museu de Folclore Edison Carneiro, a mostra tensiona o conceito de cultura popular, conforme o diretor do Centro Nacional de Folclore, Rafael Barros. Ele enfatiza o multiverso trans como expressão popular contemporânea, ampliando o debate sobre o que define a arte popular hoje. A visitação ocorre até 22 de abril, de terça a sexta das 10h às 18h, e fins de semana e feriados das 11h às 17h.

Eventos de abertura e conexões culturais

A inauguração incluiu a oficina Imaginários do barro, ministrada por Caru Brandi, com vivência em escultura cerâmica para 15 participantes. À noite, performance ballroom com Maru e Kayodê Andrade celebrou a resistência LGBTQIA+, negra e latina, originária dos anos 1970 nos Estados Unidos. No Brasil, o movimento ganhou força em Brasília desde 2015, com balls que promovem vogue e pertencimento.

Maru, modelo, atleta e performer transmasculino não-binário, e Kayodê Andrade, de 25 anos, fundador do Coletivo TransMaromba, trouxeram potência coletiva à abertura. Para Brandi, integrar esses artistas reforça a não individualidade das vivências trans, educando o público sobre diversidades existenciais. Essa programação destaca o caráter comunitário da exposição Fabulações transviadas de Caru Brandi.

  • Oficina de cerâmica ocorreu em 5 de março, das 14h30 às 16h30.
  • Performance ballroom enfatizou resistência e coletividade trans.
  • Coletivo TransMaromba foca saúde mental e física de transmasculinos.

Impacto e perspectivas institucionais

A Sala do Artista Popular, criada em 1983 pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, vinculado ao Iphan, promove há mais de 40 anos a difusão de saberes tradicionais. A estreia de um artista trans no programa sinaliza inclusão, alinhada ao Grupo de Trabalho LGBTQIAPN+ do Iphan, instituído pela Portaria nº 260 de 27 de junho de 2025. Rafael Barros vê na mostra uma expansão do horizonte cultural popular.

Caru Brandi espera que a iniciativa se torne política institucional, ampliando espaços para artistas trans no Rio e além. A visibilidade gerada educa sobre transmasculinidade, que abrange reconhecimento masculino sem necessariamente binário, e não-binaridade, fora do homem-mulher tradicional. Essa exposição Fabulações transviadas de Caru Brandi impulsiona debates sobre patrimônio imaterial e diversidade.

Com mais de 17 mil objetos em seu acervo, o Centro Nacional reforça políticas de preservação cultural. A mostra contribui para o reconhecimento de expressões trans como patrimônio vivo, fomentando difusão e comercialização. Futuramente, espera-se replicação em outras instituições, consolidando ganhos para a comunidade.

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