Trabalhadores em centro urbano: aumento do emprego e dos salários impulsionou queda histórica da pobreza nas metrópoles.
(Imagem: gerado por IA)
Um movimento significativo na estrutura socioeconômica do Brasil revela que o mercado de trabalho voltou a ser o principal motor de ascensão social nas grandes cidades. Entre 2021 e 2025, mais de 10 milhões de pessoas deixaram a condição de pobreza nas regiões metropolitanas do país. Os dados, revelados pelo boletim Desigualdade nas Metrópoles, apontam que a taxa de pobreza nessas áreas recuou para 18,4%, o menor valor registrado em 13 anos.
O recorde histórico e o fator salário
Pelo terceiro ano consecutivo, o Brasil alcançou uma marca histórica na redução da vulnerabilidade urbana. O estudo, realizado em parceria pelo Observatório das Metrópoles, PUC-RS e a Rede de Observatórios da Dívida Social na América Latina (RedODSAL), destaca que esse alívio no bolso dos brasileiros não veio de programas assistenciais, mas sim do contracheque. Diferente de outros ciclos econômicos, onde o Bolsa Família teve papel central, desta vez a maior oferta de vagas e a valorização real dos salários foram os protagonistas.
Segundo o economista e sociólogo Marcelo Ribeiro, pesquisador do Observatório das Metrópoles e professor da UFRJ, a melhora é expressiva. "Foi uma redução significativa. Um patamar grande, apesar do nível de pobreza ainda se manter bastante alto no conjunto das metrópoles", explica em entrevista. O especialista enfatiza que o aumento do nível de renda dos mais pobres está diretamente vinculado à remuneração do trabalho, descartando uma influência direta de transferências governamentais no período, já que os valores do Bolsa Família permanecem estagnados desde março de 2023.
Retrato da realidade: renda média e os que ficaram para trás
Apesar do otimismo dos números gerais, o volume de pessoas que ainda lutam para sobreviver nas cidades é alarmante. Em 2025, cerca de 15,2 milhões de brasileiros nas metrópoles viviam em situação de pobreza, sobrevivendo com até R$ 729 mensais por pessoa. Para se ter uma ideia da dimensão, essa multidão equivale à população somada de três estados: Pará, Paraíba e Sergipe.
No extremo da pirâmide social, a situação é ainda mais delicada. O país ainda registra 2,6 milhões de pessoas em extrema pobreza, com renda per capita de apenas R$ 229 por mês. Esse grupo, embora tenha diminuído para 3,2% da população metropolitana, ainda representa uma massa humana do tamanho da cidade de Fortaleza ou Salvador enfrentando a fome e a privação severa.
O desafio persistente da desigualdade
A pesquisa traz um alerta importante sobre a concentração de riqueza. Enquanto a pobreza diminui, a distância entre a base e o topo da pirâmide permanece abissal. Os 10% mais ricos das metrópoles ganham, em média, 16,1 vezes mais do que os 40% mais pobres. O Índice de Gini, que mede a desigualdade, fixou-se em 0,511 em 2025, evidenciando que a distribuição de renda ainda é um nó difícil de desatar.
Marcelo Ribeiro aponta que a alta taxa de juros no Brasil contribui para esse cenário. Enquanto os mais pobres dependem exclusivamente do suor do trabalho, as camadas mais ricas acumulam ganhos através de aplicações financeiras beneficiadas pela Selic elevada. Além disso, a escolarização permite que o topo da pirâmide ocupe postos de trabalho com remunerações desproporcionalmente maiores.
Abismo regional entre as metrópoles
O estudo também mapeia uma geografia da desigualdade. A disparidade entre as regiões brasileiras é gritante: o Distrito Federal ostenta uma renda média mensal de R$ 4.401, valor 2,7 vezes superior ao registrado na Grande São Luís, no Maranhão, onde a média é de R$ 1.616. As metrópoles do Norte e Nordeste continuam apresentando proporcionalmente mais pessoas em situação de vulnerabilidade do que as do Sul e Sudeste.
Considerando que as 22 regiões metropolitanas analisadas abrigam cerca de 40% da população brasileira (distribuída em 300 cidades), o desempenho desses centros urbanos dita o ritmo do desenvolvimento nacional. O desafio para os próximos anos será transformar esse alívio temporário em uma estrutura de renda sólida, capaz de resistir a flutuações econômicas e reduzir, de fato, a distância histórica entre as classes sociais.