Estudo mostra jovens conscientes de que internet precisa melhorar.
(Imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
Uma geração que nasceu conectada, mas que começa a questionar as amarras invisíveis do próprio ambiente onde vive e interage. A pesquisa inédita Adolescência Sem Filtro, realizada pela Agência Koga a pedido do Instituto Alana, lança luz sobre uma ambivalência profunda: a mesma internet que acolhe, diverte e gera pertencimento também sufoca, vicia e rouba o tempo de estudo dos jovens brasileiros.
O estudo ouviu mais de 500 jovens entre 13 e 18 anos e revelou um diagnóstico surpreendente. Longe da visão simplista de que os adolescentes são usuários passivos e alienados das telas, os dados mostram uma juventude dotada de forte senso crítico. Nada menos que 71% dos entrevistados defendem que a internet precisa continuar existindo, mas com mudanças estruturais profundas. Apenas 9% gostariam de ver o fim definitivo da rede.
O paradoxo do bem-estar e da dependência digital
A relação dos adolescentes com o ecossistema digital é marcada por uma dualidade complexa. Ao mesmo tempo em que 63% dos entrevistados afirmam sentir felicidade ao se conectarem e 71% usam as redes prioritariamente para diversão, metade admite passar mais tempo online do que gostaria. O celular deixou de ser apenas uma ferramenta para se tornar uma extensão do corpo, trazendo consigo sintomas claros de dependência.
De acordo com o levantamento, 41% dos jovens se sentem dependentes do aparelho e 39% reconhecem que perderam rendimento nos estudos por causa do uso excessivo. Plataformas como o TikTok e o Instagram surgem como protagonistas absolutas dessa dinâmica. Gabriela Barbosa, especialista em Planejamento Estratégico de Comunicação do Instituto Alana, aponta que as redes sociais funcionam muitas vezes como uma "anestesia para o tédio", mas também criam redes essenciais de afeto e informação.
A autodefesa ativa contra o design viciante
Conscientes de que as redes sociais e os algoritmos são projetados deliberadamente para capturar a atenção pelo maior tempo possível, os adolescentes têm desenvolvido estratégias próprias de sobrevivência digital. O estudo aponta que 44% deles costumam bloquear contas ou conteúdos nocivos por iniciativa própria, enquanto 32% tentam estabelecer pausas deliberadas ao longo do dia para se desconectarem.
No entanto, o esforço individual parece insuficiente diante do poder das big techs. Quase metade dos participantes (49%) acredita que as próprias plataformas deveriam ser as maiores responsáveis por construir um ambiente virtual mais saudável, e 43% exigem mecanismos de controle mais rígidos e transparentes por parte das empresas de tecnologia.
Metodologia sem filtros: de jovem para jovem
Um dos grandes diferenciais da pesquisa foi a sua metodologia qualitativa. Para evitar o chamado "adultocentrismo" — a tendência de analisar o comportamento juvenil sob a ótica e os preconceitos dos adultos —, oito adolescentes foram treinados para entrevistar seus pares. Essa escolha permitiu que as conversas fluíssem sem barreiras, gerando relatos mais sinceros e profundos sobre a vida digital.
Os dados também revelam distinções importantes de gênero no uso da rede. Enquanto os meninos utilizam o ambiente virtual predominantemente para jogos eletrônicos (66% contra 44% das meninas), elas recorrem às redes para fortalecer laços sociais, conversando com amigos e familiares (64% contra 50% dos meninos) e realizando pesquisas escolares (60% contra 46% dos meninos).
O clamor por socorro e o protagonismo juvenil
Talvez o dado mais alarmante e, ao mesmo tempo, esperançoso do estudo seja o fato de que os adolescentes não querem travar essa batalha sozinhos. Impressionantes 69% dos entrevistados declararam estar abertos a receber ajuda e apoio externo para lidar com a dependência tecnológica e equilibrar o uso das telas.
Por outro lado, embora o senso crítico seja elevado, apenas 19% acreditam que conseguem de fato influenciar ou mudar o rumo atual da internet. Para transformar essa percepção de impotência em ação transformadora, o Instituto Alana lançou a nona edição do Prêmio Criativos, que em 2026 traz o tema convocatório "A internet é nossa".
A premiação busca canalizar a energia criativa de estudantes do ensino fundamental II e médio para criar soluções práticas. O objetivo é que os próprios jovens elaborem projetos de combate ao cyberbullying, redução do tempo de tela, letramento em inteligência artificial e acolhimento digital. Com inscrições abertas até 2 de setembro e prêmios que somam R$ 12 mil, a iniciativa sinaliza o início de uma transição necessária: deixar de tratar os jovens apenas como consumidores vulneráveis de algoritmos para transformá-los nos arquitetos de uma nova e mais saudável esfera pública digital.