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Julgamento de PMs acusados de matar modelo Kathlen Romeu é marcado no Rio

Justiça do Rio de Janeiro marca para novembro o júri popular dos policiais militares envolvidos na morte da modelo grávida Kathlen Romeu, ocorrida em 2021.

20 ago 2026 - 08h32 Joice Gomes   atualizado às 08h37
Julgamento de PMs acusados de matar modelo Kathlen Romeu é marcado no Rio Família e ativistas cobram justiça por Kathlen Romeu, morta durante operação policial no Rio de Janeiro. (Imagem: Reprodução/eukathlenromeu/Instagram)

O emblemático caso que comoveu o país e reacendeu profundos debates sobre a atuação policial em favelas fluminenses entra em sua fase mais decisiva. A Justiça do Estado do Rio de Janeiro marcou oficialmente a data para o julgamento dos policiais militares Rodrigo Correia de Frias e Marcos Felipe da Silva Salviano. O júri popular está agendado para o dia 26 de novembro, às 10h, no II Tribunal do Júri da Capital, no centro da cidade.

Os réus enfrentam acusações diretas de envolvimento na morte da jovem Kathlen Romeu, atingida fatalmente por um tiro de fuzil em 8 de junho de 2021, no Complexo do Lins, localizado na zona norte da capital fluminense. O caso carrega uma carga trágica imensurável: Kathlen, que tinha apenas 24 anos de idade, estava grávida de 13 semanas e havia acabado de visitar sua avó na comunidade. A jovem foi baleada no tórax no momento em que passava por um ponto crítico da comunidade durante uma ação da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

O trágico desfecho e a comoção social no Rio de Janeiro

O episódio de violência que abreviou a vida de Kathlen e de seu filho gerou revolta imediata. A modelo chegou a receber socorro rápido de moradores e familiares, sendo transportada com urgência para o Hospital Municipal Salgado Filho, situado no bairro do Méier. Apesar das tentativas de reanimação por parte da equipe médica de plantão na unidade hospitalar, ela não resistiu aos ferimentos provocados pelo impacto do fuzil.

A perda de Kathlen Romeu não foi encarada apenas como uma fatalidade isolada pelas organizações de direitos humanos. Para os movimentos sociais e moradores de periferias, a morte da jovem negra e gestante representou mais um retrato doloroso do custo de uma política de segurança pública baseada no confronto ostensivo direto dentro de territórios vulneráveis. Manifestações populares pedindo justiça tomaram as ruas de capitais brasileiras, pressionando as autoridades por reformas estruturais na corporação e no uso de armas de grosso calibre em operações diurnas.

Decisão judicial e a força das perícias técnicas no processo

A decisão de levar os policiais militares a júri popular partiu da juíza titular da 2ª Vara Criminal da Capital, Elizabeth Machado Louro. A magistrada fundamentou a pronúncia com base no artigo 413 do Código de Processo Penal, que estabelece as diretrizes para encaminhar réus ao Tribunal do Júri quando há comprovação da existência do crime e indícios suficientes de autoria.

Os réus Rodrigo Correia de Frias e Marcos Felipe da Silva Salviano foram enquadrados nos termos do artigo 121, parágrafo 2º, inciso III (homicídio qualificado por meio de perigo comum), combinado com o artigo 73 (erro na execução de crime, que gera o desvio do alvo original) e o artigo 29 (coautoria), todos previstos no Código Penal brasileiro.

Durante a fase de instrução, a defesa técnica dos policiais tentou desqualificar a acusação, alegando a insuficiência de relatos testemunhais capazes de provar categoricamente de quais fuzis partiram o projétil fatal. Contudo, em sua sentença de pronúncia exarada em março de 2025, a magistrada enfatizou que a materialidade dos fatos está plenamente consolidada por meio de robustos elementos científicos. O laudo de necropsia oficial, os diagramas esquemáticos das lesões corporais e, primordialmente, o detalhado laudo de reprodução simulada desenvolvido pela Polícia Civil do Rio de Janeiro mostraram-se suficientes para amparar a autoria.

Desdobramentos futuros e o debate sobre câmeras corporais

O desfecho do julgamento agendado para o final do ano promete exercer forte influência sobre as diretrizes operacionais das forças policiais do Rio de Janeiro. Analistas da área jurídica e especialistas em segurança apontam que o caso atua como um termômetro para a responsabilização penal de agentes estatais em episódios envolvendo as chamadas de balas perdidas.

Atualmente, o debate público sobre a redução da letalidade policial no estado passa pela implementação progressiva de câmeras corporais nos uniformes dos agentes e pela revisão dos protocolos de incursão diurna em áreas de alta circulação de civis. Para a família de Kathlen Romeu, a expectativa do júri popular transcende a punição individual; ela representa um clamor por garantias de que outras vidas inocentes não sejam interrompidas de forma brutal pelo braço armado do Estado brasileiro.

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