Conheça as medidas socioeducativas aplicáveis aos jovens que mataram o cão Orelha na Praia Brava.
(Imagem: Polícia Civil de Santa Catarina)
A morte do cão comunitário Orelha chocou o Brasil. O animal, queridinho da Praia Brava em Florianópolis, sofreu agressões brutais no início de janeiro. Quatro adolescentes são os principais suspeitos do maus-tratos a animais que levou à eutanásia do pet.
Laudo veterinário confirmou pancada na cabeça com objeto contundente. O caso ganhou repercussão nacional, com protestos nas redes sociais e homenagens ao cão. Outro animal, Caramelo, escapou de tentativa de afogamento pelo mesmo grupo.
Maus-tratos vira ato infracional
Para adultos, o maus-tratos a animais é crime grave. A Lei de Crimes Ambientais (9.605/98), alterada pela Lei Sansão (14.064/20), prevê reclusão de dois a cinco anos para cães e gatos. Se houver morte, a pena aumenta.
Como os envolvidos têm menos de 18 anos, aplicam-se regras do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Menores são inimputáveis e cometem ato infracional análogo ao crime. O foco é na ressocialização, não na prisão.
Advogada Viviane Cabral, da OAB-SP, explica que procedimentos do ECA são rápidos e protetivos. Prioridade absoluta para proteger jovens, com prazos em dias corridos. A brutalidade do caso, porém, levanta debates sobre endurecimento das medidas.
Quais sanções os jovens podem receber
O juiz decide a medida socioeducativa com base na gravidade. Veja as opções previstas no ECA:
- Advertência: repreensão verbal simples.
- Obrigação de reparar o dano: ressarcir prejuízos à comunidade ou ONGs de proteção animal.
- Prestação de serviços à comunidade: até seis meses, máximo oito horas semanais em entidades públicas.
- Liberdade assistida: acompanhamento por orientador, mínimo seis meses, com apoio familiar e escolar.
- Semiliberdade: privação parcial de liberdade, com atividades externas como estudo ou trabalho.
- Internação: em entidade educacional, reavaliada a cada seis meses, máximo três anos. Só para casos graves com violência ou reincidência.
Internação exige violência ou ameaça grave, tipicamente contra pessoas. Viviane Cabral defende revisão da lei para incluir brutalidade contra animais. No caso Orelha, a repetição de atos e coação por familiares pesam na decisão judicial.
Investigações avançam em Florianópolis
A Polícia Civil de Santa Catarina concluiu inquérito na Delegacia de Proteção Animal. Mais de 20 testemunhas foram ouvidas, além de análise de câmeras de segurança. Imagens flagraram agressões e tentativa contra Caramelo.
Em 26 de janeiro, operação cumpriu mandados de busca e apreensão. Celulares e eletrônicos foram recolhidos para perícia. Dois adolescentes estão em Florianópolis; outros dois, nos EUA em viagem pré-programada.
Familiares foram indiciados por coação no curso do processo. Três adultos são suspeitos de intimidar testemunhas. Delegado-geral Ulisses Gabriel alerta: nomes e imagens de menores são protegidos por lei. Caso segue para o Judiciário.
Nova lei protege cães comunitários
A comoção acelerou a sanção da Lei 19.726, de 22 de janeiro, em Santa Catarina. Institui Política Estadual de Proteção ao Cão e Gato Comunitário. Define esses animais como aqueles sem tutor fixo, mas cuidados pela comunidade.
A norma proíbe remoção sem justificativa, maus-tratos ou restrição de movimento. Poder Público deve cadastrar, vacinar e fiscalizar. Parcerias com ONGs e universidades são incentivadas para abrigos e alimentação.
Descumprimento aciona Lei de Crimes Ambientais. Lei reflete evolução social, valorizando laços comunitários com pets de rua. Em Florianópolis, moradores celebram: Orelha inspira mudanças reais.
O Ministério Público de SC supervisiona. Auto de apuração de ato infracional corre na DEACLE. Sociedade cobra justiça rápida, mas humanizada. Caso expõe necessidade de educação sobre maus-tratos a animais desde cedo.
Enquanto investigações prosseguem, Praia Brava homenageia Orelha com cartazes e doações a abrigos. Mobilização online une artistas e ativistas. Brasil debate: como punir sem perder foco na prevenção?
Especialistas em direitos animais torcem por medida exemplar. Prestação de serviços em ONGs seria simbólica: jovens aprenderiam empatia cuidando de pets resgatados. Futuro depende do juiz, mas lei avança.