Em Juiz de Fora, homem soterrado por deslizamento sobreviveu graças ao amigo que cavou com as mãos.
(Imagem: Prefeitura Matias Barbosa/Divulgação)
Um homem soterrado em Juiz de Fora, Minas Gerais, sobreviveu por cerca de uma hora e meia preso nos escombros de sua casa graças à persistência de um amigo. O caso aconteceu no Jardim Parque Burnier, zona sudeste da cidade, durante os deslizamentos provocados pelas chuvas intensas que atingem a região desde 23 de fevereiro.
Deivid Carlos da Silva descreveu o momento de desespero: preso e sem conseguir se mover, ele pensava apenas em sua morte iminente. A intervenção de Luiz Otávio Souza, vizinho que cavou manualmente os destroços sob chuva forte, permitiu que ele visse luz e respirasse novamente.
A esposa e o filho de Deivid também foram resgatados pelos moradores locais, evidenciando a rede de solidariedade no bairro afetado. Enquanto isso, Luiz Otávio lidava com a própria dor, pois buscava seu sobrinho de 21 anos e a mãe dele, desaparecidos no mesmo desastre.
Deslizamentos intensificam tragédia nas chuvas
As chuvas na Zona da Mata mineira, iniciadas na segunda-feira (23), acumularam volumes superiores a 150 mm em poucas horas, saturando o solo e provocando múltiplos deslizamentos. Em Juiz de Fora e Ubá, os desabamentos destruíram casas, alagaram ruas e isolaram bairros inteiros, com o Rio Paraibuna transbordando.
O Corpo de Bombeiros registrou mais de 40 chamadas emergenciais por soterramentos, inundações e riscos estruturais na noite do dia 23. A Defesa Civil de Juiz de Fora contabilizou cerca de 440 desabrigados, acolhidos em abrigos provisórios, enquanto o governo federal reconheceu o estado de calamidade pública na cidade.
Balanços preliminares apontam ao menos 30 mortes confirmadas nas duas cidades, com 39 desaparecidos e 208 resgates bem-sucedidos até a noite de 24 de fevereiro. Equipes de 134 militares dos Bombeiros continuam as buscas em áreas de risco.
- Acumulado de chuva em Juiz de Fora superou 180 mm em pontos isolados na noite de 23 de fevereiro.
- Mais de 500 ocorrências registradas pela Defesa Civil em menos de 24 horas.
- Evacuação preventiva de 600 moradores em bairros com alto risco de novos deslizamentos.
- Alertas severos emitidos pelo Inmet e Cemaden para enxurradas e ventos de até 100 km/h.
Solidariedade comunitária em meio ao risco
Luiz Otávio Souza exemplifica a determinação dos moradores: sem dormir ou comer adequadamente, ele ajudou nos resgates apesar da chuva incessante e do perigo de novos deslizamentos. Sua frase resume o espírito coletivo: "Enquanto não achar todo mundo, não vou parar. Todo mundo aqui é família."
Outros relatos destacam ações semelhantes em bairros como Paineiras, Cerâmica e Três Moinhos, onde vizinhos removeram escombros manualmente antes da chegada dos bombeiros. Essa mobilização comunitária foi crucial nos primeiros momentos, quando o acesso era dificultado pela escuridão e pelo terreno instável.
O governo de Minas Gerais mobilizou mais de 550 agentes das Forças de Segurança para auxiliar nas operações, incluindo buscas com cães e equipamentos pesados. O governador Romeu Zema acompanhou as ações, reforçando o apoio estadual aos atingidos.
Impactos e medidas preventivas adotadas
A tragédia expõe a vulnerabilidade de áreas de encosta na Zona da Mata, agravada pelo solo encharcado após dias de precipitação acima da média histórica. Fevereiro de 2026 já é o mês mais chuvoso registrado em Juiz de Fora, com alertas prorrogados até 27 de fevereiro pelo Inmet.
A Defesa Civil emitiu alertas extremos via celular para risco geológico, orientando evacuações em 14 localidades críticas. Escolas foram convertidas em abrigos, e há distribuição de kits de higiene e alimentação para os desabrigados.
- 30 mortes confirmadas, 39 desaparecidos e 208 resgatados até 24 de fevereiro.
- 440 desabrigados e 600 em evacuação preventiva em Juiz de Fora.
- Estado de calamidade pública decretado, com reconhecimento federal.
- Previsão de mais chuvas intensas, com volumes de 50 a 100 mm por dia.
Os impactos econômicos incluem danos a plantações, queda de árvores e interrupções no fornecimento de energia. Moradores relatam perda total de bens e isolamento prolongado, demandando reconstrução de infraestrutura básica.
Perspectivas e lições para o futuro
Especialistas do Cemaden alertam para risco muito alto de novos deslizamentos enquanto o solo não secar, recomendando monitoramento contínuo. O histórico de desastres no Brasil, com mais de 4 mil mortes por chuvas em 33 anos, reforça a necessidade de planejamento urbano em encostas.
As autoridades planejam vistorias em áreas de risco após a trégua pluviométrica, com foco em realocação de famílias vulneráveis. A solidariedade observada, como no caso do homem soterrado resgatado pelo amigo, inspira esperança em meio à dor coletiva.
Organizações humanitárias intensificam coletas de doações para suprir necessidades imediatas, enquanto o governo federal libera recursos para recuperação. A tragédia reforça a importância de sistemas de alerta precoce e educação comunitária para minimizar perdas em eventos climáticos extremos.