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Resíduos Plásticos

Microplástico no prato: Estudo revela contaminação em 93% dos peixes do litoral

Pesquisa revela que 93,6% dos peixes analisados no litoral paranaense contêm microplásticos. O impacto atinge também aves e tartarugas, gerando alerta ambiental.

27 mai 2026 - 08h37 Joice Gomes   atualizado às 08h40
Microplástico no prato: Estudo revela contaminação em 93% dos peixes do litoral Pesquisa analisa a presença de resíduos plásticos invisíveis que afetam a vida marinha e a cadeia alimentar. (Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Um dado alarmante acaba de colocar em xeque a pureza dos recursos marinhos no litoral brasileiro. Uma pesquisa conduzida pela oceanógrafa Fernanda Possatto revelou que nada menos que 93,6% dos peixes coletados em feiras e mercados do litoral paranaense apresentam microplásticos em seu sistema digestivo. O estudo, que analisou amostras de diversas espécies, joga luz sobre um problema invisível, mas onipresente, que ameaça não apenas a fauna, mas o equilíbrio de toda a cadeia alimentar.

As partículas encontradas são fragmentos menores que 5 milímetros, resultantes da degradação de produtos como garrafas, embalagens, tecidos sintéticos e até pneus. O levantamento foi minucioso: dos 47 indivíduos examinados inicialmente, 44 já carregavam esses detritos. A maior incidência de contaminação foi observada nos chamados peixes demersais, espécies que vivem em contato direto com o fundo do mar, onde o lixo tende a se acumular de forma mais densa.

Risco imediato ou preocupação futura?

Para o consumidor, a pergunta inevitável é: o consumo desses peixes é seguro? Segundo Possatto, o risco imediato para a saúde humana ainda é objeto de estudos. Como o microplástico se concentra prioritariamente no trato digestivo, parte que geralmente é descartada durante o preparo para o consumo humano, a ingestão direta de partículas através do músculo do peixe (o filé) ainda não foi confirmada como um perigo sanitário direto.

No entanto, a preocupação científica reside na bioacumulação. "Ainda estamos investigando o quanto dos componentes tóxicos presentes nesses plásticos pode ser absorvido pelos tecidos musculares", explica a pesquisadora. Estudos internacionais indicam que a presença desses fragmentos pode liberar substâncias químicas que resultam em tumores e alterações na capacidade reprodutiva dos animais, o que pode, a longo prazo, reduzir a população de peixes e impactar a economia pesqueira.

O impacto além dos peixes: aves e tartarugas

O problema não se limita ao que chega às bancadas dos mercados. O Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar) identificou que a poluição plástica é um desafio sistêmico que ignora fronteiras geográficas. Aves marinhas, como gaivotas, também são vítimas: em 69% das amostras de material regurgitado por essas aves, foram encontrados fragmentos plásticos.

O cenário é ainda mais dramático para as tartarugas-verdes. De acordo com a bióloga Camila Domit, coordenadora do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR, 80% das tartarugas encontradas mortas no litoral apresentavam lixo no trato digestivo. O impacto é mecânico e químico: plásticos rígidos causam lesões internas e rompimentos, enquanto a ingestão de resíduos deixa os animais debilitados, flutuando sem conseguir mergulhar para se alimentar, o que os torna alvos fáceis para redes de pesca e colisões com embarcações.

Um problema sem fronteiras

A pesquisa destaca que o microplástico é encontrado tanto em áreas de intenso fluxo humano, como as proximidades do Porto de Paranaguá, quanto em áreas de preservação ambiental e terras indígenas. Isso ocorre porque o vento, as marés e as correntes marítimas transportam esses fragmentos por milhares de quilômetros, tornando a poluição um fenômeno global.

Para os especialistas, a solução exige um esforço conjunto entre políticas públicas, mudanças na produção industrial e consumo consciente. Enquanto os índices de segurança para a presença de plástico na água e nos alimentos ainda estão sendo construídos pela ciência, o alerta serve como um lembrete urgente de que o descarte de uma simples garrafa plástica na cidade pode terminar, inevitavelmente, no ciclo biológico da vida marinha e, eventualmente, no prato de quem vive a centenas de quilômetros da costa.

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