Jogadores da seleção brasileira de vôlei masculino durante partida da Liga das Nações em Chicago.
(Imagem: Volleyball World/Divulgação)
O vôlei masculino do Brasil vive um dos capítulos mais dramáticos de sua história recente. Pela primeira vez desde a criação da Liga das Nações (VNL), em 2018, a Seleção Brasileira está fora da fase final do torneio. Nem mesmo a vitória categórica por 3 sets a 0 contra a China (parciais de 25/16, 25/20 e 25/21), neste domingo, em Chicago, nos Estados Unidos, foi capaz de apagar o gosto amargo de uma eliminação precoce que expõe as fragilidades de uma reconstrução dolorosa sob o comando de Bernardinho.
A seleção entrou em quadra de mãos atadas, ciente de que o milagre da classificação havia escapado na noite anterior. A derrota dolorida para a Polônia na sexta-feira deixou o destino do Brasil à mercê de outros resultados. A matemática exigia uma vitória dos Estados Unidos sobre a Bulgária no sábado. Contudo, os búlgaros surpreenderam, venceram por 3 sets a 1 e decretaram, por antecipação, a queda brasileira antes mesmo do último saque da rodada.
A dura realidade dos números e o novo cenário mundial
O triunfo protocolar sobre os chineses levou o Brasil aos 19 pontos na tabela, garantindo apenas a incômoda nona colocação. Distante da Ucrânia, sétima colocada com 23 pontos, o país assiste de longe ao bloco de elite que disputará o título. O atual regulamento da VNL pune a irregularidade: vitórias por 3 a 0 ou 3 a 1 somam três pontos, enquanto triunfos no tie-break reduzem a recompensa para dois pontos. Essa margem cobrou um preço alto de um elenco que oscilou nos momentos de maior pressão do campeonato.
A análise fria da campanha mostra que o sinal de alerta já estava aceso. Se entre 2022 e 2024 as quedas nas quartas de final eram tratadas como acidentes de percurso para uma equipe habituada ao pódio, a desclassificação na primeira fase é um choque de realidade inédito. O único título brasileiro na competição, conquistado em 2021, hoje parece um retrato distante de uma soberania que o cenário internacional tratou de diluir com o crescimento de forças como Polônia, Itália e Estados Unidos.
Renovação tardia e o desafio de Bernardinho
O retorno do técnico Bernardinho ao comando da equipe carregava a promessa de resgatar a mentalidade vencedora e acelerar a maturação de jovens talentos. Na partida de despedida em Chicago, lampejos dessa nova geração puderam ser vistos. O ponteiro Adriano liderou a pontuação nacional com 13 acertos, seguido de perto pelo central Flávio, com 12, e pelo oposto Darlan, que contribuiu com 11 pontos. A performance individual, no entanto, escancara a falta de consistência coletiva que marcou a trajetória do grupo ao longo das semanas de disputa.
Enquanto o Brasil lamenta o pior desempenho de sua história na Liga das Nações, a lanterna China carimba seu passaporte para as quartas de final de forma automática por ser o país-sede das finais, que acontecem na cidade de Ningbo. Essa ironia do regulamento serve para ilustrar a distância que hoje separa o planejamento brasileiro do topo do esporte. O momento exige mais do que lamentações; pede uma reformulação profunda no processo de transição de atletas e na preparação tática para que o vôlei masculino do Brasil não assista ao restante do ciclo olímpico como mero espectador.