Rodoviários do Rio de Janeiro mantêm estado de greve após fracasso em negociação salarial no TRT RJ.
(Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
A iminência de um colapso no transporte público do Rio de Janeiro voltou a assombrar os milhões de passageiros que dependem diariamente dos ônibus municipais. A quinta rodada de conciliação entre o Sintraturb-Rio (Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transportes Rodoviários) e o Rio Ônibus (sindicato patronal) terminou de forma frustrante nesta quarta-feira, sem que as partes chegassem a um denominador comum. O encontro, realizado na sede do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-RJ), selou o impasse e empurrou a disputa para a via judicial, mantendo a categoria em estado de greve.
O abismo entre as propostas e a insatisfação dos trabalhadores
O nó cego da negociação reside na distância intransponível entre os pleitos da categoria e a contraproposta dos empresários. Enquanto os rodoviários exigem uma recomposição salarial de 12%, as concessionárias de transporte insistem em limitar o reajuste a 5%. A diferença compromete o poder de compra de milhares de motoristas e cobradores que enfrentam jornadas estressantes no trânsito carioca.
Outro ponto crítico de fricção envolve a cesta básica. A representação patronal sugeriu um acréscimo de 6% no benefício, o que elevaria o valor nominal para aproximadamente R$ 700 mensais. Contudo, o Sintraturb-Rio rejeitou a oferta imediatamente. De acordo com lideranças sindicais, os descontos previstos em folha reduzem o valor real líquido da cesta para cerca de R$ 600, quantia considerada insuficiente diante da inflação dos alimentos na região metropolitana.
Prazos e o rito processual no TRT-RJ
Diante do fracasso consensual, o dissídio coletivo seguirá as regras formais do tribunal. A sessão foi conduzida pelo desembargador Gustavo Tadeu Alkmim, que já determinou os próximos passos processuais. Agora, abre-se um prazo simultâneo de dez dias para que patrões, empregados e a própria Prefeitura do Rio de Janeiro apresentem suas defesas e posicionamentos.
Após esse período, as partes terão mais cinco dias para réplicas. O processo passará pelo crivo do Ministério Público do Trabalho (MPT), representado na última audiência pela procuradora Deborah da Silva Félix, que defende a continuidade do diálogo. Somente depois desse trâmite a ação será distribuída para a Seção Especializada em Dissídios Coletivos (Sedic), que julgará o mérito e a abusividade da paralisação.
O fantasma da paralisação sobre a rotina da cidade
Para a população carioca, a falta de entendimento traduz-se em insegurança diária. Os rodoviários chegaram a cruzar os braços no dia 29 de junho, suspendendo o movimento em 2 de julho após uma mediação inicial do TRT-RJ. Desde então, a trégua é frágil. Sob o status de "estado de greve", a categoria sinaliza que uma nova paralisação pode ser deflagrada caso o cenário se deteriore.
Analistas de mobilidade urbana apontam que qualquer interrupção no fluxo de ônibus no Rio de Janeiro gera um efeito cascata imediato, sobrecarregando linhas de metrô, trens urbanos e o tráfego de vias expressas como a Avenida Brasil e a Linha Vermelha. A economia do município, fortemente dependente do comércio e de serviços, monitora o desenrolar jurídico com extrema preocupação.
Ainda há espaço para a diplomacia?
Embora a etapa de conciliação formal tenha se encerrado sob a tutela direta do tribunal, os canais de comunicação não estão completamente lacrados. O desembargador Gustavo Alkmim deixou claro que o TRT-RJ mantém as portas abertas para uma composição amigável a qualquer momento do processo, bastando uma manifestação conjunta de interesse.
O desfecho dessa crise agora depende da capacidade das lideranças em recalcular perdas e ganhos antes que a caneta do Judiciário decida o destino das tarifas, dos salários e do próprio direito de ir e vir do cidadão carioca.