Ações do Julho das Pretas em São Vicente valorizam a liderança feminina e discutem ações afirmativas para a Baixada Santista.
(Imagem: Divulgação)
A cidade de São Vicente se prepara para receber, nesta segunda-feira (27), uma série de atividades dedicadas ao Julho das Pretas. O evento, que acontece na esteira do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, busca não apenas resgatar a memória histórica de lideranças femininas, mas também colocar no centro do debate as demandas contemporâneas por equidade, direitos e espaço na administração pública e no mercado de trabalho regional.
A mobilização em São Vicente ganha contornos especiais por se tratar da primeira vila do Brasil, um território marcado por complexas heranças coloniais onde a população negra, historicamente, desempenhou papéis cruciais de resistência. A programação gratuita reúne ativistas, artistas, pesquisadoras e a comunidade local para debater os caminhos da representatividade e as estratégias de combate ao racismo estrutural que ainda limita o avanço socioeconômico de milhares de mulheres na Baixada Santista.
O peso histórico e a força de Tereza de Benguela
Criado originalmente em 2013 pela organização Odara – Instituto da Mulher Negra, o Julho das Pretas transformou-se em uma agenda coletiva nacional de extrema relevância política. A escolha do mês faz referência direta a 25 de julho, data em que também se homenageia Tereza de Benguela, líder quilombola que comandou o Quilombo do Quariterê no século XVIII, tornando-se um dos maiores símbolos nacionais de resistência contra a escravidão.
Para além do resgate do passado, as ações em São Vicente focam no diagnóstico do presente. Dados recentes de institutos de pesquisa socioeconômica revelam que as mulheres negras ainda ocupam as posições mais vulneráveis no mercado de trabalho, enfrentando dupla jornada e disparidades salariais acentuadas, inclusive quando possuem o mesmo nível de escolaridade que outros grupos. Discutir essas realidades em praça pública e em espaços institucionais é o primeiro passo para pressionar por mudanças na legislação municipal.
Cultura, escuta e incidência política na programação
A agenda desta segunda-feira prioriza a criação de espaços de fala seguros e produtivos. Por meio de rodas de conversa, palestras de formação cidadã e apresentações culturais, os organizadores pretendem aproximar a juventude periférica das discussões sobre identidade e pertencimento. A ideia é demonstrar que a cultura afro-brasileira é um pilar de sustentação econômica e de emancipação para muitas famílias vicentinas.
Coordenada por coletivos locais e secretarias municipais, a iniciativa reforça o papel do município em descentralizar o acesso à informação. O evento abre canais para que empreendedoras da região apresentem seus trabalhos, fomentando a chamada economia criativa e solidária. Essa troca direta fortalece redes de apoio mútuo, permitindo que mulheres compartilhem soluções práticas para os desafios cotidianos de gestão e geração de renda nas periferias.
O futuro das políticas afirmativas na Baixada Santista
O encerramento das atividades do Julho das Pretas não sinaliza o fim das ações, mas sim a abertura de um calendário de cobranças e formulações. Líderes do movimento social de São Vicente apontam para a necessidade de institucionalizar essas discussões em políticas públicas permanentes, como a criação de conselhos municipais robustos e planos de metas voltados à saúde integral da mulher negra, ao combate à violência doméstica e à garantia de creches para mães trabalhadoras.
O desdobramento esperado para os próximos meses é a consolidação de uma frente parlamentar e comunitária capaz de monitorar o andamento desses projetos. Ao trazer à tona a voz de mulheres historicamente silenciadas, São Vicente dá um passo fundamental para reescrever sua própria história sob a ótica da justiça social e do reconhecimento de suas verdadeiras protagonistas.