Latam incorpora na frota os primeiros aviões da Embraer, com 24 jatos E195‑E2, numa parceria de US$ 2,1 bi e potencial expansão para até 74 aeronaves.
(Imagem: gerado por IA)
O grupo Latam recebeu nesta quarta‑feira (25) as primeiras aeronaves compradas da Embraer, marcando a primeira vez na história que a maior companhia aérea da América Latina passa a operar aviões fabricados pela indústria brasileira. Trata‑se de jatos modelo E195‑E2, que começarão a reforçar a rede regional da companhia, com investimentos bilionários anunciados e expectativa de maior conectividade entre cidades menores no Brasil.
O evento de entrega das primeiras aeronaves foi realizado no MRO Latam, principal centro de manutenção da empresa em São Carlos (SP), com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do vice‑presidente Geraldo Alckmin, ministros e executivos das duas empresas. Segundo Lula, o acordo consolida o que chamou de “casamento há muito tempo esperado” entre uma das maiores operadoras aéreas do continente e a terceira maior fabricante de aviões comerciais do mundo.
Parceria de US$ 2,1 bilhão
O acordo firmado entre Latam e Embraer tem valor inicial de US$ 2,1 bilhão pelos 24 jatos E195‑E2, com previsão de que o contrato possa ser ampliado com a aquisição de até mais 50 aeronaves do mesmo modelo, elevando o potencial para um total de 74 E2. O negócio integra um plano de expansão mais amplo da Latam no Brasil, que estima investimentos de cerca de US$ 4 bilhões entre 2023 e 2026, destinados tanto à renovação da frota quanto ao aumento da malha doméstica e internacional.
Para o CEO da Latam no Brasil, Jerome Cadier, a entrada dos E195‑E2 na frota permite combinar um produto considerado “brilhante” da Embraer com o serviço diferenciado da companhia, ampliando a capacidade de atender rotas regionais e inter‑estaduais hoje ainda pouco servidas. Segundo ele, mais da metade do crescimento do setor aéreo brasileiro em 2025 foi puxado pela Latam, que soma cerca de 22,5 mil funcionários em escala global.
Por que o E195‑E2?
O E195‑E2 é um jato de corpo estreito de nova geração, projetado para transportar de forma eficiente uma quantidade intermediária de passageiros, fazendo a ponte entre o curto‑curso (aviões turboélice e jatos menores) e as rotas de maior demanda operadas por aeronaves de grande porte. Segundo o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, o modelo é notável pela eficiência energética, conforto da cabine e baixo custo operacional por assento, o que o torna especialmente adequado para ligações entre cidades médias e centros regionais.
A introdução do E195‑E2 com a marca Latam não impacta apenas o mercado brasileiro: a fabricante vê na presença da bandeira da companhia aérea uma forma de reforçar a projeção internacional do modelo, ampliando sua visibilidade junto a outras operadoras que buscam soluções eficientes para redes regionais. Cada avião, nas palavras de Neto, traz consigo uma cadeia de empregos e valor agregado, considerando os 23,5 mil funcionários da Embraer no Brasil e no mundo.
Impacto na aviação brasileira
A incorporação dos E195‑E2 ocorre em um dos momentos de maior expansão da aviação civil brasileira. Segundo o ministro de Portos e Aeroportos, Sílvio Costa Filho, o número de passageiros transportados no país saltou de 97,7 milhões em 2022 para 130 milhões em 2025, o que representa um dos maiores crescimentos do setor a nível mundial. O governo projeta chegar a 140 milhões de passageiros até o fim de 2026, impulsionados por viajantes de negócios e turistas de lazer.
Os investimentos da Latam, incluindo a aquisição dos aviões da Embraer e a ampliação da capacidade de manutenção em São Carlos, reforçam esse ciclo de crescimento. O centro MRO da companhia, herdado da antiga TAM e inaugurado em 2001, é hoje o maior complexo de manutenção aeronáutica da América do Sul, com nove hangares e capacidade de trabalhar em até 16 aeronaves simultaneamente. Até então, o local lidava principalmente com aviões de Airbus e Boeing; agora, passa a integrar também a manutenção de jatos brasileiros, alterando a configuração técnica e industrial da frota doméstica.
Rotação interna e serviços regionais
- Os E195‑E2 serão usados, em grande parte, para ampliar a oferta em rotas regionais, conectando cidades de médio porte a grandes hubs, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Salvador.
- Para o passageiro, a expectativa é de mais frequências e maior previsibilidade em voos de menor demanda, com aeronaves modernas que oferecem conforto semelhante ao de jatos de médio/longo curso.
- A Embraer menciona que a eficiência do E2 pode reduzir emissões e custos operacionais, o que pode pesar na decisão de manter ou até criar novas conexões internas pouco viáveis com outras plataformas.
A operação dos E195‑E2 na Luassa também se inscreve em um cenário de disputa por participação em malhas regionais, em que companhias como Azul e GOL também apostam em aeronaves de fabricantes brasileiros. A diferença aqui, no entanto, é o porte da Latam: ao integrar a Embraer à sua frota, a empresa pode reforçar uma estratégia de rede própria, reduzindo dependência exclusiva de Airbus e Boeing e ganhando mais flexibilidade para moldar rotas conforme a demanda doméstica.
Desafios e expectativas
Apesar do otimismo em torno do “casamento” entre Latam e Embraer, especialistas em aviação chamam atenção para dois desafios principais: a adaptação da manutenção e da logística de peças próprias de um novo modelo, e a necessidade de disciplina tarifária para evitar que a maior oferta de capacidade em regiões menores desencadeie corrida de preços. Ao mesmo tempo, o investimento é visto como um sinal de confiança na retomada do turismo e da atividade econômica regional no Brasil.
Na prática, o que muda para o passageiro é a possibilidade de ver mais voos ligando cidades que hoje dependem de conexões distantes ou de rotas irregulares. A chegada do primeiro E195‑E2 na frota da Latam marca, portanto, não apenas uma novidade técnica, mas também um passo importante na tentativa de tornar a malha aérea brasileira mais densa, mais conectada e, em longo prazo, mais competitiva.