Pela primeira vez em quase 30 anos, Minas Gerais e o Brasil registram inversão na balança comercial da tilápia devido à concorrência asiática.
(Imagem: gerado por IA)
Pela primeira vez na história recente, a balança comercial da piscicultura brasileira registrou um fenômeno inesperado: o volume de tilápia importada superou o de exportações. O movimento, impulsionado pela chegada agressiva do produto vietnamita, marca uma virada de chave preocupante para um setor que vinha batendo recordes de produção interna.
Um marco histórico negativo para o setor
O sinal de alerta mais nítido veio de Minas Gerais. O estado, que é um dos pilares da produção nacional, registrou a compra de tilápia estrangeira pela primeira vez desde 1997. Em fevereiro de 2026, desembarcaram em solo mineiro 122 toneladas vindas do Vietnã, um volume que, embora pareça pontual, revela uma mudança profunda na dinâmica do mercado.
Em nível nacional, os números são ainda mais expressivos. O Brasil importou mais de 1,3 mil toneladas de filé de tilápia em um único mês. Para se ter uma ideia da magnitude, isso equivale a cerca de 4,1 mil toneladas de peixe vivo, representando 6,5% de toda a produção mensal do país. É um volume que compete diretamente com o produtor local nas gôndolas dos supermercados.
O fator custo e a desigualdade tributária
A grande questão que intriga o mercado não é a falta de peixe no Brasil, mas o preço. A tilápia brasileira é reconhecida pela qualidade, mas enfrenta dificuldades para competir com o custo operacional do Vietnã. O país asiático produz em larga escala e consegue colocar o filé no mercado brasileiro com valores que muitas vezes ficam abaixo do custo de produção nacional.
Especialistas e produtores apontam que o problema é agravado pela carga tributária. Enquanto estados como o Paraná e São Paulo já implementaram mecanismos de defesa, em outras regiões o produto importado entra com vantagens fiscais. Na prática, o setor argumenta que a ausência de uma taxação equilibrada acaba por subsidiar indiretamente o peixe estrangeiro em detrimento do nacional.
Riscos sanitários e o futuro da produção
Além do impacto financeiro imediato, a entrada descontrolada de pescado importado traz um risco invisível: a biosseguridade. O Brasil é atualmente livre do vírus da tilápia do lago (TiLV), uma doença que devasta criações e poderia causar prejuízos bilionários caso entrasse no país através de lotes contaminados.
A pressão sobre os pequenos produtores é imensa. Com a margem de lucro espremida pela concorrência asiática e o aumento dos custos de ração e energia, muitos temem que o ritmo de investimentos em tecnologia e genética seja freado. O cenário atual exige uma revisão urgente das políticas de importação para garantir que a piscicultura brasileira não perca a liderança histórica.