Indústria brasileira de aço e manufaturados está entre os setores mais afetados pelas novas tarifas norte americanas.
(Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
A nova ofensiva protecionista dos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, acendeu o sinal de alerta no setor produtivo brasileiro. A aplicação de uma sobretaxa cambial e aduaneira, o chamado tarifaço promete redesenhar as relações comerciais entre as duas maiores economias das Américas, mas com um impacto muito mais cirúrgico do que catastrófico na balança comercial do Brasil.
Embora as novas taxas de importação afetem diretamente apenas 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano, o estrago promete ser profundo em setores altamente estratégicos de nossa economia. Em vez de um colapso generalizado no saldo comercial, o país enfrentará um forte estrangulamento na indústria de transformação.
O paradoxo comercial: Por que a balança macro não vai desmoronar?
De acordo com dados analisados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o fluxo de trocas entre os dois países já vinha experimentando uma retração. No primeiro semestre, o comércio bilateral somou US$ 36,4 bilhões, uma queda expressiva de 12,8% em comparação ao mesmo período anterior. O Brasil fechou esse ciclo com um déficit comercial de US$ 1,5 bilhão com os norte-americanos.
Economistas explicam que o superávit comercial brasileiro não corre risco iminente de desmoronar por um motivo geográfico e de portfólio. O motor do saldo positivo nacional é a exportação de commodities agrícolas e minerais, cujos destinos prioritários estão na Ásia, liderada pela China.
A pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) e professora da Uerj, Lia Valls, aponta que a participação das vendas externas para os Estados Unidos recuou para a faixa de 9,4%. Para ela, o impacto agregado será marginal, uma vez que o mercado asiático continua absorvendo a maior fatia das riquezas primárias do país.
O calcanhar de Aquiles: A asfixia da indústria de manufaturados
Se as grandes lavouras de soja e a pecuária respiram aliviadas, o mesmo não se pode dizer dos complexos fabris paulistas e sulistas. O presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, alerta que o verdadeiro drama reside no déficit de manufaturados. As barreiras impostas pela Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 dos EUA miram justamente os bens de maior valor agregado.
O tarifaço varia de 25% a salgados 50% em itens específicos, somando-se a restrições tarifárias já preexistentes. Setores como siderurgia (aço), alumínio, maquinário industrial, calçados e montadoras de automóveis perderão competitividade de forma quase imediata. São exatamente essas cadeias produtivas que geram empregos de maior qualificação e melhores salários em solo nacional.
Sem conseguir repassar o custo tarifário ou redirecionar esses produtos para outros mercados de forma rápida, as indústrias brasileiras correm o risco de perder espaço para concorrentes internacionais que não foram alcançados pela ira protecionista de Washington.
O geopolítica das barreiras: Retaliação ou diplomacia?
Diferente de disputas tarifárias clássicas, a atual escalada promovida pela Casa Branca assumiu contornos marcadamente políticos. Especialistas observam que o governo de Donald Trump passou a utilizar insatisfações ideológicas e regulatórias, como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), regras para plataformas digitais brasileiras e políticas ambientais para justificar o aumento da barreira econômica.
Nesse cenário hostil, a sugestão de adotar a Lei de Reciprocidade Econômica e retaliar as importações americanas divide opiniões, pendendo fortemente para o ceticismo. A imposição de tarifas contra a superpotência global poderia gerar um efeito bumerangue nocivo à economia doméstica.
Especialistas da AEB e da FGV sugerem que o Brasil evite o confronto direto e busque o caminho do multilateralismo, acionando a Organização Mundial do Comércio (OMC) e intensificando missões comerciais capitaneadas pela ApexBrasil para abrir novos mercados em regiões emergentes. O futuro da indústria brasileira dependerá da velocidade com que o país conseguirá pivotar suas exportações de alta tecnologia para fora do radar protecionista norte-americano.