Terminal Marítimo de Passageiros Giusfredo Santini (Concais), no Porto de Santos, principal hub de cruzeiros do Brasil.
(Imagem: gerado por IA)
No dia 23 de outubro, o Porto de Santos dá a largada oficial para uma das engrenagens mais dinâmicas de sua economia de serviços: a temporada de cruzeiros marítimos 2026/2027. Com uma previsão de 92 dias de operação, o maior complexo portuário da América Latina se prepara para receber 146 escalas e um fluxo estimado em 785 mil turistas, injetando fôlego financeiro crucial para o comércio e o setor de hotelaria da Baixada Santista.
Este movimento massivo não se restringe apenas aos limites do cais. O turismo marítimo funciona como um indutor de consumo em cascata. Passageiros em trânsito e tripulantes movimentam restaurantes, bares, lojas de souvenir e serviços de transporte por aplicativo, gerando postos de trabalho temporários bem antes do primeiro navio atracar no terminal de passageiros da Concais.
Injeção financeira na Baixada Santista
Estudos da Clia Brasil (Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos) apontam que cada turista de cruzeiro gasta, em média, centenas de reais por dia na cidade de escala. Multiplicado pelas centenas de milhares de visitantes previstos, o impacto direto ultrapassa a barreira das dezenas de milhões de reais para o comércio de Santos e cidades vizinhas, como Guarujá e São Vicente.
A hotelaria local também registra picos de ocupação nos finais de semana de embarque e desembarque. Muitos viajantes de outros estados optam por chegar à região um ou dois dias antes da viagem de navio para conhecer os pontos turísticos locais, como o Museu Pelé e o Centro Histórico. Esse fenômeno amplia o tempo de permanência e o tíquete médio gasto no município.
A cadeia de suprimentos necessária para abastecer esses gigantes dos mares também movimenta o setor industrial e agrícola. Toneladas de alimentos frescos, bebidas e insumos de hotelaria são adquiridas de fornecedores regionais a cada parada, criando um ecossistema de logística terrestre robusto que gera empregos indiretos em distribuidoras, cooperativas de alimentos e transportadoras.
Os desafios logísticos por trás dos números gigantes
Operar mais de uma centena de escalas em pouco mais de três meses exige sintonia fina entre a Prefeitura de Santos, a Autoridade Portuária e os operadores de tráfego. O principal gargalo reside na mobilidade urbana nos dias de múltiplos embarques, quando milhares de malas e passageiros convergem simultaneamente para a região do terminal.
Para mitigar os impactos no trânsito, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Santos) planeja rotas especiais e monitoramento em tempo real nos principais acessos viários, como a Avenida Rodrigues Alves. A eficiência portuária nas operações de bagagem e alfândega também é constantemente testada, demandando investimentos contínuos em tecnologia e segurança privada por parte da concessionária do terminal.
Gigantes dos mares e a sustentabilidade no radar
A nova temporada deve trazer de volta embarcações de bandeiras consagradas, como MSC Cruzeiros e Costa Cruzeiros, com navios modernos que adotam padrões mais rigorosos de sustentabilidade. O tratamento de águas residuais a bordo e a redução na emissão de gases poluentes tornaram-se prioridades para o setor, que busca alinhar o crescimento financeiro às metas globais de conservação marinha.
O perfil do cruzeirista atual também tem se transformado, atraindo um público mais jovem e famílias em busca de viagens integradas de curta duração, os chamados mini-cruzeiros. Esse dinamismo obriga as operadoras a diversificarem os roteiros partindo de Santos, incluindo destinos nacionais disputados e conexões rápidas com o Prata, na Argentina e Uruguai, transformando o porto paulista no verdadeiro coração do turismo náutico do Cone Sul.
A expectativa é que o sucesso desta temporada sirva de termômetro para os planos de expansão física do próprio terminal de passageiros. O debate sobre a transferência do terminal para a área do Valongo, no Centro Histórico, ganha força a cada recorde batido, sinalizando que o futuro do turismo de cruzeiros em Santos está intimamente ligado à reurbanização e revitalização de suas áreas portuárias mais antigas.