Reforma tributária: Governo prevê R$ 678 bilhões com novos impostos em 2027
(Imagem: Imagem gerada por IA)
O envio do projeto da Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 ao Congresso Nacional marca o início prático de uma das maiores transformações econômicas do Brasil moderno. Pela primeira vez, o governo federal colocou no papel as projeções de arrecadação dos tributos criados pela reforma tributária, revelando o peso que a nova Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) terá nos cofres públicos. A estimativa inicial aponta para uma arrecadação robusta de R$ 636 bilhões sob a gestão direta da União no primeiro ano de vigência integral do imposto.
A urgência em compreender esse cenário reside na velocidade do cronograma fiscal que se aproxima. Para as empresas e planejadores financeiros, o ano de 2027 não representa um futuro distante, mas sim um marco regulatório com impacto direto na formação de preços e na margem de lucro operacional. A transição começará a ser sentida em breve, exigindo adaptação imediata das cadeias de suprimentos de todo o país.
O enigma da alíquota da CBS e o papel do TCU
Apesar de o Ministério da Fazenda detalhar as expectativas bilionárias de receita, o Orçamento de 2027 foi enviado sem a definição de qual será a alíquota nominal da CBS. Esse percentual estratégico não será estipulado de forma arbitrária pelo Palácio do Planalto, mas por meio de uma engenharia técnica compartilhada entre diferentes instituições de controle e o Poder Legislativo.
O rito constitucional determina que a Receita Federal envie ao Tribunal de Contas da União (TCU) a proposta de cálculo da alíquota de referência até 14 de setembro. A corte de contas terá até o final de outubro para homologar as contas. O passo seguinte caberá ao Senado, que precisará fixar a alíquota definitiva até 15 de dezembro. Segundo Dario Durigan, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, a metodologia de transição foca na ampliação da base de contribuintes, diluindo a carga sobre setores produtivos tradicionais e incorporando regimes especiais previamente aprovados.
O início do polêmico "Imposto do Pecado"
Paralelamente à CBS, o ano de 2027 marcará a estreia do Imposto Seletivo (IS), apelidado no debate público de "imposto do pecado". Com uma arrecadação estimada em R$ 41,9 bilhões, o novo tributo será direcionado a produtos e atividades considerados prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente. A incidência será focada em setores específicos, como cigarros, bebidas alcoólicas, bebidas açucaradas, mineração, veículos poluentes e apostas online.
Ao somar a CBS e o Imposto Seletivo, a arrecadação federal associada à reforma somará R$ 677,9 bilhões já em 2027. Esse montante substituirá de forma definitiva o Programa de Integração Social (PIS) e a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), além de absorver a maior parte da incidência atual do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que será praticamente zerado, preservando apenas as vantagens competitivas da Zona Franca de Manaus.
A engrenagem do IVA Dual e o destino dos tributos
A transição busca consolidar o modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) Dual, no qual a CBS federal atua em sintonia com o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de competência estadual e municipal. Uma das principais inovações do modelo é o mecanismo de não cumulatividade plena. A partir de 2027, as companhias poderão compensar integralmente os tributos pagos nas etapas anteriores da cadeia de produção, reduzindo custos operacionais acumulados.
A mudança estrutural para a cobrança no destino, onde ocorre o consumo do bem ou serviço, e não onde ele é produzido, promete encerrar de maneira progressiva a guerra fiscal interestadual. Com o IBS sob a gestão de estados e municípios, o país inicia um período de convivência híbrida entre os sistemas antigo e novo, com vigência plena do modelo simplificado prevista para 2033.
Margem fiscal e o superávit nas contas públicas
O Orçamento de 2027 também revela outras fontes fundamentais para a estabilidade econômica. A exploração de recursos naturais, com forte influência dos royalties de petróleo, deve gerar R$ 176 bilhões. Em contrapartida, as receitas com dividendos de empresas estatais devem recuar para R$ 31 bilhões, uma queda considerável frente aos R$ 55,5 bilhões projetados para o ano anterior.
Sob a coordenação do ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, o governo estabeleceu uma meta de superávit primário efetivo de R$ 18,6 bilhões. Excluindo despesas específicas temporariamente fora do limite de gastos, como determinados precatórios judiciais, o saldo positivo projetado alcança R$ 83,4 bilhões. Essa folga orçamentária é vista pela equipe econômica como uma garantia contra flutuações de mercado, permitindo o cumprimento rigoroso das regras fiscais sem sobressaltos na administração pública nos próximos anos.